PROJETO A CONDIÇÃO FEMININA NOS PAÍSES
DO MERCOSUL:
SISTEMA INTEGRADO DE INDICADORES DE GÊNERO NAS ÁREAS
DE TRABALHO E EDUCAÇÃO
O Projeto A Condição Feminina nos Países
do Mercosul: Sistema Integrado de Indicadores de Gênero
nas Áreas de Trabalho e Educação foi desenvolvido
durante o período compreendido entre os meses de dezembro
de 2000 a abril de 2002, no Instituto Brasileiro de Administração
Municipal - IBAM, com sede no Rio de Janeiro.
O IBAM, uma organização criada em 1952, realiza
trabalhos que incidem diretamente sobre o funcionamento e gestão
dos órgãos governamentais, sobre o processo de
tomada de decisões no setor público e sobre a
definição de políticas públicas
pertinentes às diferentes instâncias de governo,
no Brasil e no exterior. Concebe e realiza estudos que geram
informações sobre o ambiente social no qual os
governos atuam, permitindo o surgimento de soluções
inovadoras para os problemas identificados.
O UNIFEM e a União Européia, organismos que financiaram
o Projeto, bem como a GTZ que o apoiou, ao escolherem o IBAM,
por intermédio do seu Núcleo de Estudos Mulher
e Políticas Públicas, para coordenar o Projeto,
sinalizaram para a direção básica que o
trabalho deveria tomar: gerar evidências que pudessem
influenciar políticas públicas.
Além disso, a opção por um Projeto dedicado
à construção de indicadores de gênero
para os países do Mercosul indica um duplo reconhecimento:
a relevância das desigualdades de gênero e a visão
de que o Mercosul, a firmar-se como bloco econômico, terá
de posicionar-se como um "bloco de planejamento" em
sentido amplo. Compreende-se que, sob uma visão sistêmica,
definições sobre política comercial influenciam
políticas setoriais em seu conjunto. Como um "bloco
de planejamento" regional e supranacional dependerá,
necessariamente, da articulação entre agentes
sociais e os governos, inclusive, dos países componentes
do bloco.
Neste contexto, o Projeto criou insumos específicos
para o aprimoramento das políticas públicas, valendo-se
de uma perspectiva de planejamento ainda não consolidada
nos próprios países do Mercosul. Contribui para
a criação de uma visão de conjunto acerca
das características das relações de gênero,
das desigualdades entre mulheres e homens no campo do trabalho
e da importância da educação/escolaridade
como meio para propiciar inserções diferenciadas
no mercado de trabalho.
O sentido estratégico do Projeto reside no fato de que
antecipa futuras necessidades de informação de
uma região cujos países poderão beneficiar-se
e fortalecer-se em conjunto, como conseqüência da
adoção de políticas voltadas para a diminuição
das desigualdades sociais, traçadas a partir de uma base
de indicadores comuns. O ineditismo do Sistema está calcado
no efetivo exercício de estabelecer indicadores compatíveis
com as estatísticas oficiais de cada país e comparáveis
entre si. Ultrapassou-se a discussão sobre aquilo que
seria desejável e partiu-se para experimentar as possibilidades
de execução, com todos os ônus de botar
a mão na massa e descobrir que o que parecia simples
e quase óbvio é muitas vezes inviável.
Entre as finalidades do Sistema podem ser destacadas tanto a
necessidade de orientar a formulação, implementação
e avaliação de políticas públicas
quanto de dar visibilidade à participação
das mulheres na discussão dos temas relacionados aos
seus interesses.
Outra possibilidade de utilização dos resultados
do Projeto é de caráter local. Em cada um dos
países envolvidos, é possível que outros
estudos já tenham sido dedicados aos mesmos temas. No
sistema são disponibilizadas informações
e dados que podem complementar análises sobre as condições
de vida de mulheres e homens, especialmente nas aglomerações
urbanas.
É importante lembrar que a concepção do
Projeto se insere na esfera da sistematização
de informações e, portanto, não se
dispõe a produzir estatísticas. Pretende-se influenciar
a qualidade da estatística, ao contribuir para a inserção
de uma perspectiva de gênero ao processo de sua produção.
A compatibilidade com as estatísticas oficiais e a comparabilidade
entre os indicadores estabelecidos para os países determinam
as potencialidades e as limitações do Sistema
como ferramenta de planejamento e de aproximação
do que são condições de vida de homens
e mulheres.
Cabe ressaltar que o Sistema não foi construído
com objetivo normativo ou prescritivo. O Sistema não
é um "modelo de sistema" e, certamente, deverá
contribuir para que se percebam os graus de invisibilidade com
que as relações de gênero são tratadas
nas estatísticas oficiais. É preciso reconhecer
e reafirmar que o Sistema resultou daquilo que é atualmente
possível, considerando-se os sistemas nacionais de estatística
dos países do Mercosul. Neste sentido também não
pretende ser explicativo nem estabelecer relações
de causalidade entre as situações observadas.
Só a elaboração de estudos específicos
suscitados pela análise do material ora produzido poderá
fazê-lo.
O ano de 1990 é um marco, considerando-se que em 1991
foram assinados documentos que institucionalizam o Mercosul.
Não obstante, os anos contemplados pelo Sistema - 1995
e 1999 - respeitam modificações importantes ocorridas
nas Pesquisas Domiciliares da década de 1990, tanto no
Brasil quanto no Paraguai, cuja não observância
comprometeria a comparabilidade dos dados.
Em linhas gerais, o Sistema tem as seguintes características:
foram utilizadas, como base de dados, as pesquisas por
amostras domiciliares, realizadas anualmente em todos os países
estudados, tendo sido escolhidos os anos de 1995 e 1999. A possibilidade
de realizar verificações em prazos mais curtos
do que o do Censo Demográfico - que é decenal
- é muito importante para o monitoramento do planejamento
governamental;
foi dada prioridade ao uso das informações
relativas às pessoas entrevistadas. As informações
que tratam dos domicílios e das famílias, disponibilizadas
em arquivos específicos das bases de dados adquiridas,
não foram incluídas no Sistema;
do ponto de vista dos setores de políticas públicas
enfocados, a ênfase recaiu sobre o de trabalho, tomando-se
o da educação como elemento básico, capaz
de contribuir para a mudança de posição
e das condições de inserção no mercado
de trabalho;
a construção dos indicadores pautou-se
pela disponibilidade e compatibilidade de informações
nas bases dos quatro países estudados e de acordo com
a perspectiva de se manter a continuidade das séries
no tempo;
os indicadores construídos têm a finalidade
de evidenciar a condição de mulheres e homens
em relação aos temas estudados, segundo o material
já disponível nos sistemas nacionais de estatística.
Portanto, a desigualdade entre ambos é obtida pela análise
das informações contidas no Sistema;
a dimensão espacial foi considerada tomando-se
como referência as informações para os países,
em nível sub-nacional, conforme as suas organizações
político-administrativa (unidades federadas; departamentos;
regiões metropolitanas e aglomerações urbanas).
O Sistema, em todos os seus aspectos, foi elaborado em português
e em espanhol. São cerca de quatrocentas tabelas, em
cada um dos idiomas, reunidas segundo seis grupos de indicadores
definidos, quais sejam: aspectos demográficos; condição
no domicílio; renda total; escolaridade; trabalho e renda;
desigualdades de renda. Como variáveis independentes
foram utilizados: sexo, idade, renda e instrução
(segundo grau incompleto ou mais). Sete textos foram concebidos
tomando como base o Sistema, bem como a sistematização
e a análise decorrentes dos seus resultados.
O primeiro deles, de autoria de Luis Carlos Prado e Leonardo
Weller, foi escrito com o propósito de traçar
um histórico das relações entre os países
que, hoje, compõem o Mercosul. Analisa a formação
do bloco econômico considerando as articulações
formais orientadas por normas e procedimentos voltados para
disciplinar a concorrência entre os quatro países,
bem como para promover a convergência de interesses que
fortaleçam a capacidade de negociação dos
países como um todo.
O segundo texto volta-se para os aspectos metodológicos
do Sistema e foi elaborado por Antonio Carlos Alkmim dos Reis
com a finalidade de registrar o processo de seleção
e construção das variáveis, considerando
tanto os aspectos subjacentes ao manuseio das quatro bases de
dados quanto as compatibilidades e especificidades das informações
fornecidas pelos órgãos responsáveis pelas
estatísticas oficiais de cada um dos países do
Mercosul.
Para cada um dos quatro países estudados foi elaborado
um perfil que explora possibilidades de análise a partir
dos indicadores desenvolvidos em diálogo com as especialistas
em cada um dos países e que integraram a equipe de trabalho.
O Escritório Regional para o Brasil e Cone Sul, do UNIFEM,
com experiência que tem em atuar, mundialmente, sobre
o tema gênero, e articular profissionais colaborou na
identificação de consultoras internacionais que
realizaram os estudos sobre cada um dos países do Mercosul.
As autoras dos perfis nacionais (Norma Sanchis - Argentina,
Marina Sidrim Teixeira - Brasil, María Victoria Heikel
- Paraguai, Rosario Aguirre Cuns e Karina Batthyány -
Uruguai) estruturam seus trabalhos com autonomia, mas observando
a seqüência em que os indicadores são apresentados
que, por si, sugere um roteiro básico para a elaboração
dos Perfis Nacionais. Com base na análise dos indicadores
ou sua sistematização é possível
perceber, com maior ou menor intensidade, as diferenciações
entre homens e mulheres nas áreas de trabalho e de educação
e a incidência de políticas sobre suas condições
sociais.
O último texto, de autoria de Maria da Graça Ribeiro
das Neves, traz uma comparação entre os países,
utilizando-se os indicadores do Sistema como ponto de partida
para aproximar-se de uma quantificação da desigualdade
entre homens e mulheres. Utilizou-se, sempre que possível
e pertinente, uma medida simples e ao alcance dos objetivos
do projeto: o cálculo das brechas de gênero,
respeitada a lógica dos indicadores anteriormente construídos.
O Sistema foi disponibilizado em meio eletrônico sob
a forma de CD-ROM e de homepage na internet, abrigada
no portal do IBAM. Uma preocupação subjacente
à equipe do projeto foi a de produzir um Sistema que
pudesse ser utilizado em equipamentos com poucos recursos, evitando-se
que a sofisticação tecnológica se constituísse
em um empecilho. Por esta, entre outras razões, o sistema
foi concebido em linguagem html, visando a dupla forma
de consulta. Contudo, se, cada vez mais, o uso da informática
estabelece-se como imprescindível, a consulta a meios
impressos está longe de torna-se dispensável.
Por este motivo, foi elaborada uma publicação
(disponível nos dois idiomas) que reúne os textos
produzidos.
Para o desenvolvimento do Sistema foram agregados esforços
não só dos especialistas diretamente envolvidos,
mas também de instituições que firmaram
convênios com o IBAM. A Secretaria de la Mujer do Paraguai,
representada pela Ministra Cristina Muñoz, viabilizou
o acesso às bases de dados do país, por intermédio
do envio das Encuestas de Hogares dos anos selecionados. A Faculdad
de Ciencias Sociales de la Universidad de Buenos Aires, da Argentina,
e a Associación Pro-Fundación para las Ciencias
Socilas, do Uruguai, viabilizaram a aquisição
das bases das Encuestas de seus países.
O IBAM, no ano em que comemora os seus 50 anos, completa este
ciclo de atuação junto à administração
municipal, e contribui para a construção de um
repertório de questões relacionadas às
políticas de desenvolvimento no âmbito dos processos
democráticos. Desejamos que o trabalho ora apresentado
alimente o debate e a formulação de políticas,
nas áreas de trabalho e de educação, voltadas
tanto para a redução das assimetrias entre homens
e mulheres quanto para a melhoria das suas condições
de vida. Agradecemos à GTZ que permitiu iniciar a reflexão
acerca do tema dos indicadores de gênero, ao UNIFEM que
suscitou o tema e esteve presente em todas as etapas do trabalho
e à União Européia por ter apoiado a idéia
de conceber um sistema de indicadores direcionados para os setores
do trabalho e da educação, considerando-se o Mercosul.
Mara D. Biasi Ferrari Pinto
Delaine Martins Costa