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MERCOSUL: INTEGRAÇÃO E O
PROBLEMA SOCIAL
Luís Carlos Delorme Prado1
Leonardo Weller2
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO: AS EXPERIÊNCIAS
DE INTEGRAÇÃO NO CONE SUL
1.1 - O Plata: Tempo e Lugar do Encontro das Colonizações
Portuguesas e Espanholas
1.2- As Relações Econômicas
Brasil e Argentina e as Origens da Integração no
Cone Sul
2 - ORIGENS DO MERCOSUL
2.1 - Aproximação Comercial Brasil-Argentina
2.2 - As Negociações do Tratado
de Assunção
2.3 - Mercosul: Instituições e Estrutura
3 - A IMPLEMENTAÇÃO DO MERCOSUL
3.1 - O Apogeu: Redução de Barreiras
Tarifárias
3.2 - Apogeu e Crise: a Questão da Coordenação
Macroeconômica
3.3 - O Mercosul e o Mundo
4 - INTEGRAÇÃO ECONÔMICA E
POLÍTICA SOCIAL NO MERCOSUL
4.1 - Os Países do Mercosul: Uma Comparação
4.2 - Convergência Social e Econômica
no Mercosul
5 - CONCLUSÃO: O FUTURO DO MERCOSUL
BIBLIOGRAFIA
1. Introdução: As Experiências de Integração
no Cone Sul
1.1 - O Plata: Tempo e Lugar do Encontro das
Colonizações Portuguesas e Espanholas
Durante
dois séculos e meio as colonizações ibéricas
desenvolveram-se na América do Sul de costas uma para
outra. A grande riqueza das colônias espanholas era a
mineração. O coração do Império
Espanhol era o altiplano. Metais preciosos, principalmente prata,
eram sua riqueza. A mineração foi a base dos primeiros
pólos de crescimento situados no Alto Peru e em Potosi,
no que é hoje a Bolívia. Em torno deste mercado
viabilizaram-se a ocupação permanente do Chile
e do Norte da Argentina. O centro administrativo dessa economia
era Lima.
Somente no século XVIII, com a decadência da mineração,
o equilíbrio regional da atividade comercial deslocou
os centros de cultura andina para as zonas habitadas anteriormente
por tribos nômades e para o grande porto atlântico
de Buenos Aires. Em 1776, a criação do Vice-Reino
do Plata faz de Buenos Aires a capital de uma região
hoje ocupada pela Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.
A ocupação portuguesa no Brasil baseou-se principalmente
na agricultura e no extrativismo até a descoberta do
ouro nas Minas Gerais. Embora tenha expandido enormemente seu
território desde o descobrimento até o tratado
de Madri, em 1750, a penetração portuguesa do
vasto interior brasileiro criou apenas algumas poucas vilas,
com reduzida população. A expansão territorial
portuguesa foi possível pela ausência espanhola
nessas vastas regiões, que até hoje caracterizam-se
pela pouca importância econômica.
Apenas no Plata portugueses e espanhóis se encontraram
frente a frente. Antes da criação do novo Vice-Reinado,
as relações entre os dois impérios se dava
pela porta dos fundos. A Colônia de Sacramento era uma
base de contrabando e Buenos Aires era, ainda, periferia do
Império. A ascensão de Buenos Aires faz o império
se virar para o Atlântico e encontrar de frente a grande
colônia portuguesa.
Buenos Aires se firma no comércio e na guerra. A independência
das colônias espanholas na América, depois da invasão
da Espanha por Napoleão, desagrega o Vice-Reinado do
Plata. Paraguai, Bolívia e finalmente Uruguai seguem
seus próprios caminhos. Buenos Aires, a cidade, sempre
em conflito com a Província, supera as dificuldades levando
à criação da Argentina. O Brasil é
um ator importante no Plata. Adversário e aliado desse
país, vive intensamente a formação das
novas repúblicas do Cone Sul. Cooperação
e conflito são marcas desta única região
das Américas em que as duas colonizações
ibéricas viveram em contínua competição.
1.2 - As Relações Econômicas
Brasil e Argentina e as Origens da Integração
no Cone Sul
Duas das três maiores economias latino-americanas se encontraram
no Cone Sul. O sucesso econômico argentino baseou-se em
um modelo agrário-exportador extremamente bem-sucedido
no período 1870-1930, que no entanto mostrou-se pouco
dinâmico a partir da Segunda Guerra Mundial. O Brasil,
ao contrário, foi o país latino-americano no qual
o processo de substituição de importações
alcançou os melhores resultados.
O modelo agroexportador argentino foi um sucesso inquestionável.
A renda per capita argentina era maior que o dobro da brasileira
em 1880; alcançando 4,5 vezes em 1913. Nesse período
esse país reduziu expressivamente seu setor de subsistência,
fazendo-o muito menor, relativamente, do que o brasileiro. A
educação básica na Argentina, embora muito
inferior à canadense e australiana, era significativamente
superior à brasileira. Em 1914, a população
analfabeta com idade igual ou superior a 14 anos na Argentina
era de 36%. Em 1920 a taxa de analfabetismo comparável
para o Brasil era de 65%3.
Diferentemente da Argentina, o Brasil no século XIX teve
um desempenho econômico medíocre. Durante o século
XIX as exportações per capita brasileiras em libras
correntes cresceram apenas 0,6% a.a. Nos primeiros 30 anos do
século XIX as exportações per capita caíram
1,1% ao ano. Não obstante entre os anos 1930 e 1940 ter
havido recuperação nas exportações,
essas só retornaram ao nível da virada do século
na metade do XIX. Na segunda metade daquele século as
exportações per capita cresceram a taxa média
anual de 1,2%. Este desempenho, mesmo elevado em comparação
com o período anterior, foi insuficiente para produzir
o impacto transformador que o comércio exterior gerou
na Argentina, ou em outros países de colonização
recente, como Austrália e Canadá. O crescimento
do comércio exterior brasileiro neste período
foi inferior à taxa média de crescimento per capita
do comércio exterior mundial no século XIX, que
foi de 2,9% ao ano, e muito inferior à taxa de expansão
do comércio exterior per capita mundial no seu período
de aceleração máxima, que foi de 4,3% entre
1840-18704.
No Brasil e na Argentina a produção de bens exportáveis
estava nas mãos de cidadãos, embora nos dois países
o comércio exterior fosse em grande medida realizado
por empresas e empresários estrangeiros.
Apenas no século XX, em especial depois da Primeira Guerra
Mundial, a distância no padrão de desenvolvimento
entre o Brasil e a Argentina diminuiu. O desempenho excepcional
das exportações de café no oeste paulista
teve um importante impacto regional, funcionando como um motor
para a industrialização. Embora ao fim da década
de 1920 ambos os países dependessem extensivamente de
importações para atender sua demanda doméstica
de produtos importados, o Brasil já tinha em alguns produtos
uma base industrial muito superior a da Argentina. Na área
têxtil, por exemplo, o Brasil atendia nesse período
mais de dois terços do mercado doméstico, enquanto
na Argentina estes ainda eram predominantemente de origem estrangeira.
Buenos Aires, contudo, ainda era o principal centro industrial
do continente e muitas das empresas industriais portenhas eram
de grande porte. O maior consumo local compensava a diferença
de população entre Argentina e Brasil.
A produção industrial argentina, no entanto, era
derivada principalmente de sua atividade exportadora. Pouco
antes da primeira Guerra Mundial a demanda de carne na Europa
ampliou enormemente o mercado para os estancieiros e frigoríficos
argentinos. Mas a partir da década de 1920 o crescimento
das exportações desacelerou-se. Tal fato pode
ser explicado pelas dificuldades econômicas de seu maior
mercado, o Reino Unido.
A Argentina não respondeu à desaceleração
de suas exportações com a diversificação
de sua pauta de exportação, como fez o Canadá,
país concorrente e em muitos aspectos similar à
nação portenha. A argentina manteve a composição
de suas exportações, nos mesmos produtos tradicionais:
carne, couros, lã e cereais. Diferentemente do Canadá,
país que sustentou durante esta década política
tarifária protecionista, a Argentina manteve-se em uma
política estrita de livre comércio, usando as
tarifas de exportação exclusivamente para fins
fiscais.
O excepcional desempenho da economia argentina nos 50 anos compreendidos
entre as décadas de 1870 e 1920 não se repetiu
no período posterior a 1930. A Argentina mostrou pouca
flexibilidade para mudar um modelo que tinha se esgotado com
a Grande Depressão, levando pelo menos 15 anos a mais
que o Brasil para iniciar uma política de industrialização
deliberada. Enquanto no Brasil a Revolução de
1930 reduziu o poder da velha oligarquia agroexportadora, e
lentamente começou a mover-se em direção
a um maior apoio a iniciativas industriais, a revolução
de setembro de 1930 na Argentina levou ao poder os grupos políticos
conservadores, defenestrados pelos radicais em 1916.
A crise mundial na década de 1930 ameaçou o modelo
exportador argentino, que fundava-se na extraordinária
fertilidade dos Pampas e na relação privilegiada
com a Grã-Bretanha. Por outro lado, durante a crise,
este país preferiu privilegiar o comércio com
seus domínios - Canadá, Austrália, Nova
Zelândia e Índia - em prejuízo das exportações
argentinas. A resposta foi uma gestão diplomática
que levou à assinatura do tratado Roca-Runciman, que
concedida grandes vantagens ao capital britânico para
investimento no país. Mas, nem mesmo assim as exportações
argentinas recuperaram o antigo dinamismo.
A partir de 1930 o mercado interno começou a absorver
proporções crescentes da produção
rural da zona pampeana. Se antes de 1930 a demanda mundial de
produtos agropecuários de zona temperada era elevada
e em contínua expansão, a partir da crise mundial
a contração da demanda internacional, as práticas
protecionistas e a formação de blocos obrigaram
a Argentina a negociar para exportar seus produtos, o que restringia
sua liberdade no que toca às políticas comerciais
domésticas A crise reduziu também as entradas
de investimento internacional, com repercussões profundas
no nível de ocupação e renda doméstica.
A renda per capita diminuiu após 1929 em mais de um quinto
e só em 1946 alcançou o nível anterior
à crise; o poder de compra das exportações
não voltou, por mais de três décadas, a
alcançar o nível de 1925-29. As exportações,
que nesse quinquênio representavam um quarto do PIB, oscilaram
depois na década de 1950 em menos de um décimo
do PIB (Ferrer, 1981, p.188).
O afastamento do regime conservador em 1943 e a ascensão
de Perón em 1946 levaram a Argentina a uma política
radicalmente nacionalista. No primeiro governo peronista foi
elaborado um plano qüinqüenal e implementadas várias
medidas consideradas requisitos para o seu cumprimento, entre
elas a regulamentação da atividade bancária,
a criação do Instituto Argentino de Promoción
del Intercambio (IAPI) e a nacionalização dos
serviços públicos (Dromi, 1996, p.13).
A dependência Argentina do mercado europeu trazia problemas
difíceis de serem superados. O país mantinha superávit
com a Europa e déficit com os EUA, precisava de dólares
mas recebia apenas libras, francos franceses ou lira, os quais
não podiam ser trocados pela moeda norte-americana, na
difícil conjuntura do imediato pós-guerra. A situação
era agravada com a ação norte-americana de impor
barreiras às exportações da Argentina,
em parte como represália à neutralidade durante
a guerra, em parte devido à sua política protecionista.
Durante o governo de Perón a gestão econômica
esteve claramente subordinada à sua estratégia
política. Baseada em uma política externa independente,
na intervenção estatal e na nacionalização
de empresas estrangeiras, o programa peronista não teve
resultados espetaculares. Sua deposição, em 1955,
provocou o retorno dos conservadores, que reverteram rapidamente
às políticas econômicas anteriores.
No Brasil, o período 1930-1955 foi de contínuo
crescimento econômico, exceto no início da primeira
década durante a Grande Depressão. A taxa média
de crescimento do PIB foi de 4,8% ao ano, mais do que o dobro
da taxa equivalente argentina de 2,3% ao ano. Os governos Vargas
e mesmo o fraco governo Dutra obtiveram resultados econômicos
superiores aos argentinos. As relações internacionais
brasileiras, mesmo quando Getúlio Vargas entrava em choque
com interesses de grandes potências, foram sempre competentes
e capazes de realizar hábeis negociações.
O Brasil participou da criação do FMI e do Banco
Mundial, foi parte contratante na criação do GATT
e participou ativamente das primeiras rodadas de negociação.
A Argentina, ao contrário, só ingressou nas organizações
de Bretton Woods em 1956, demorando também para se inserir
no sistema multilateral de comércio.
As diferenças econômicas e políticas entre
Brasil e Argentina não impediram que estes países
tivessem uma participação importante em todas
as experiências de integração sul-americanas.
A primeira delas originou-se de um Grupo de Trabalho para o
Mercado Regional Latino-Americano, criado pelo Comitê
de Comércio da CEPAL em 1957. As atividades deste grupo
culminaram, três anos mais tarde, na primeira tentativa
formal de integração econômica entre os
países latino-americanos no século XX, a ALALC
(Associação Latino-Americana de Livre Comércio).
Pela primeira vez representantes de países latino-americanos
discutiam seriamente uma proposta de integração
econômica. Os velhos sonhos de cooperação
entre os povos da região pareciam transformar-se de uma
fantasia irrealista em um projeto pragmático, fundado
em interesses recíprocos.
Neste processo, os dois maiores países do Cone Sul, Argentina
e Brasil, deixaram de lado os resquícios da velha rivalidade
e colaboraram intensamente. Em janeiro de 1960 foi criada pelo
Tratado de Montevidéu, assinado por Argentina, Bolívia,
Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México Paraguai,
Peru, Uruguai e Venezuela, a ALALC (Associação
Latino-Americana de Livre Comércio). Posteriormente,
ratificaram o acordo Colômbia, Equador e Bolívia.
Este tratado foi inspirado no acordo que criou, em 1953, a Comunidade
Européia do Carvão e do Aço e pretendia
que até 1973 seus países membros elaborassem uma
lista de produtos que não estariam sujeitos a barreiras
comerciais dentro da região.
Na década de 1960 a Guerra Fria acirrou-se na América
Latina. A revolução cubana, a crise dos mísseis,
a postura mais aguerrida dos movimentos de esquerda latino-americanos
foram alguns dos fatos que contribuíram para uma posição
mais dura dos EUA em apoio a grupos conservadores na região.
Neste clima, a região foi sacudida por Golpes de Estado
e as disputas ideológicas mobilizaram as energias nacionais.
Experiências de políticas externas independentes
foram interrompidas pela instabilidade política da região,
como por exemplo a renúncia de Jânio Quadros e
a deposição de Arturo Frondizi.
O menor grau de colaboração entre as duas maiores
economias sul-americanas contribuiu para que as negociações
na ALALC perdessem força a partir de 1965, estagnando-se
por completo na década de 1970. Dentre os fatores que
ocasionaram tal paralisia pode-se destacar a noção,
comum entre os governos dos países membros na época,
de que o mercado doméstico era um ativo estratégico
que só deveria ser disponibilizado para outros países
com muita cautela. Por essa ocasião, a despeito do processo
de substituição de importações,
a região continuava exportando essencialmente produtos
primários ou pouco processados, cujas elasticidade-rendas
eram notavelmente baixas. Na prática, os vizinhos latino-americanos
viam-se mais como concorrentes do que como parceiros.
Nos últimos anos da década de 1960 e na década
de 1970 verificou-se uma grande diferença nas taxas de
crescimento do Brasil e dos outros países do Cone Sul.
O Brasil desenvolveu um conjunto de políticas baseadas
no estímulo à industrialização acelerada
e em uma política de diversificação das
exportações que manteve uma taxa elevada de crescimento
econômico, mesmo depois da eclosão da crise do
petróleo em 1973. A estratégia brasileira para
enfrentar a crise mundial foi completar seu processo de substituição
de importações, com ênfase na indústria
de insumos básicos e bens de capital. Este foi um período
em que as exportações brasileiras tiveram um desempenho
notável: saltaram de 2,7 bilhões de dólares,
em 1970, para 20,13 bilhões de dólares, em 1980,
o que implica uma taxa de crescimento média anual de
22% (Prado, 1999, p.183).
Os outros países do Cone Sul não tiveram o mesmo
desempenho. Durante estes anos, a Argentina apresentou um conjunto
de políticas diferenciadas e contraditórias. Depois
de um tumultuado período sob governo militar entre 1966-73,
os peronistas voltaram ao poder. Entretanto, o retorno de Perón
não teve o brilho de outrora. A tragédia peronista
tomou a forma de uma grande farsa, onde não faltou a
ascensão de sua nova mulher Maria Estela Martinez à
presidência, depois de sua morte, e o poder da figura
sinistra e folclórica de José Lopez Rega. Em março
de 1976 assumiu o governo, nomeado por uma junta militar, o
general Jorge Rafael Videla. Este manteve-se no cargo até
1981, quanto foi substituído pelo General Marcelo Viola,
que logo depois passaria o governo ao general Leopoldo Fortunato
Galtieri. A existência de governos militares na Argentina,
mas também no Brasil, contribuiu para o malogro da ALALC,
na medida em que estes tendiam a uma postura de desconfiança,
e, no caso argentino, de enfrentamento regional5.
Durante a administração Videla a Argentina empreendeu
uma política fortemente liberal, similar às que
estavam sendo praticadas pelo Chile e Uruguai no mesmo período.
Observe-se que estas políticas foram implementadas na
Argentina antes de ganhar a legitimidade internacional que obteve
na década de 1980, depois dos governos Reagan e Thatcher.
O diagnóstico realizado foi de que os problemas econômicos
da Argentina derivavam do abandono do modelo exportador e da
economia aberta que caracterizaram este país até
a grande depressão, em 1929. Nesse sentido, o governo
empreendeu um conjunto de reformas em três etapas: a primeira
(entre abril de 1976 e maio de 1978), de controle de salários
e câmbio valorizado; a segunda (1978-81), aproveitando
a disponibilidade de capital externo e da maior abertura financeira
para reduzir a inflação com controle cambial;
e uma terceira (1981-83), onde o crescente endividamento e a
impossibilidade de sustentar a taxa de câmbio levaram
a uma crise financeira com quebra de bancos e redução
de reservas internacionais.
Os países da região, mas em especial o Brasil
e a Argentina, viveram intensamente a crise da dívida
da década de 1980. Entretanto, o endividamento brasileiro
correspondeu a um aumento da capacidade produtiva que levou
a completar o processo de industrialização, com
a formação de uma indústria diversificada
e integrada. O endividamento argentino foi em grande parte resultado
da política do ministro Martinez de Hoz (1977-80), que
tentou liberalizar as importações e manter o câmbio
valorizado para controlar a inflação e aumentar
a produtividade através da exposição das
empresas domésticas à competição
internacional. O fracasso desta política econômica
viria antecipar em duas décadas o malogro de sua reedição
no Brasil e Argentina, no fim da década de 1990. A dívida
externa neste caso foi a contrapartida de um déficit
em conta corrente. Este não foi resultado da importação
de matérias-primas ou bens de capital, mas do aumento
da importação de bens de consumo e serviços
consumidos no exterior, o que contribuiu para a falência
ou fechamento de empresas e indústrias domésticas.
Em 1980, com o reconhecimento do fracasso do projeto de integração
latino-americano na ALALC, os países que pertenciam a
essa associação tentaram retomar o processo, reformulando-o.
Reconhecia-se que o caráter excessivamente ambicioso
da ALALC tinha sido uma das causas de seu fracasso, e que era
necessário criar um acordo mais flexível. Isto
foi feito com a criação da ALADI (Associação
Latino-Americana de Integração).
A ALADI foi criada pelo Tratado de Montevidéu, em 12
de agosto, e ratificada pelos mesmos países que integravam
a ALALC. Estas duas associações distingem-se entre
si principalmente no que diz respeito às suas pretensões.
Ao invés de objetivar uma zona de livre comércio,
como fez a ALALC, a ALADI propõe a criação
de uma zona de preferência econômica. Sua intenção
primordial é facilitar integrações bilaterais,
as quais podem servir de base para a integração
plurilateral no continente.
Os acordos firmados no âmbito da ALADI dividiam-se em
dois grupos: os acordos de alcance parcial, de caráter
bilateral entre países membros; e os acordos de alcance
regional, nos quais todos os integrantes participam. Dentre
o segundo grupo destacam-se os seguintes acordos: preferência
tarifária regional, que propõe a redução
tarifária entre os países integrantes tendo como
referência as tarifas impostas aos produtos de países
não-membros; lista de abertura de mercado, que visa condições
mais favoráveis aos países membros de menor desenvolvimento
econômico relativo; e cooperação e intercâmbio
de bens nas áreas cultural, educacional e científica.
Do ponto de vista de integração comercial, o fracasso
das iniciativas centradas na ALALC e ALADI pode ser expresso
pelos seguintes dados: a proporção do que os países
membros comercializavam entre si em relação ao
que comercializavam com o resto do mundo aumentou, entre 1960
e 1990, de 10% para apenas 12%6.
Apesar de a integração plurilateral latino-americana,
objetivo final da ALADI, não ter se verificado, esta
associação serviu, em meados da década
de 1980, de espaço institucional para a aproximação
comercial entre a Argentina e o Brasil. Firmava-se, assim, a
base institucional para as negociações que viriam
a culminar na criação do Mercosul no decênio
seguinte.
2 - Origens do Mercosul
2.1 - Aproximação Comercial Brasil-Argentina
Ditaduras militares freqüentemente têm dificuldades
para implementar políticas cooperativas com países
próximos nas relações internacionais. As
relações entre Brasil e Argentina foram marcadas,
durante a década de 1970, por conjunturas diplomáticas
tensas, nas quais os governos militares consideravam seus vizinhos
adversários e não parceiros. Neste contexto, a
construção da usina brasileiro-paraguaia de Itaipu,
que alterou o volume hídrico do rio Paraná, tornou-se,
do ponto de vista dos governantes argentinos, uma ameaça.
O estabelecimento de cotas argentinas da energia gerada pela
usina marcou o início de um processo de distensão
nas relações bilaterais. A Guerra das Malvinas,
por seu turno, teve relevância na reaproximação,
embora tenha afetado negativamente as relações
entre Argentina e Chile, o qual se alinhou à Inglaterra.
Isolada, a Argentina viu-se obrigada a estreitar as relações
com o Brasil, que passou a intermediar transações
internacionais do vizinho ao longo do conflito.
Contudo, a aproximação entre os dois países
verificada na década de 1980 iniciou-se apenas com a
redemocratização. A mudança de regime impeliu
a Argentina a repensar a orientação de sua política
externa, principalmente no que toca a América Latina.
A escolha do Brasil como parceiro estratégico tornou-se
a base desta nova etapa. De um lado, a aproximação
dava força e estabilidade às transições
democráticas desenvolvidas paralelamente em ambas nações.
Por outro, a crise da dívida tornava conveniente relações
econômicas mais sólidas. Sobre este último
ponto, deve-se notar que negociações conjuntas
possibilitariam a obtenção de financiamentos externos
em melhores condições. De maneira análoga,
a intensificação do comércio bilateral
viabilizaria a importação de parte dos insumos
e componentes que ambas economias necessitavam com urgência.
Neste contexto, o presidente argentino Raúl Alfonsín
e seu colega brasileiro José Sarney assinaram, em 30
de novembro de 1985, a Declaração de Iguaçu.
Com ela foi criada uma comissão intergovernamental mista
com o objetivo de acelerar a integração entre
os dois países. Lançavam-se, assim, as bases para
a assinatura dos vários acordos setoriais que seriam
firmados dali ao fim da década de 1980.
O início da seqüência dos acordos deu-se no
dia 29 de julho de 1986, com a assinatura da Ata para a Integração
Argentino-Brasileira, que estabeleceu o Programa de Integração
e Cooperação Econômica (PICE). Em sua primeira
etapa foram assinados 12 protocolos relativos à expansão
do comércio bilateral, nos setores relativos à
energia, bens de capital, trigo, complementação
de abastecimento alimentar, empresas binacionais, assuntos financeiros,
fundos de investimento, biotecnologia, segurança nuclear
e radiológica, cooperação aeronáutica
e estudos econômicos. Este processo evoluiu com novos
protocolos assinados em 1986 e 1988, levando a que em 29 de
novembro de 1988 fosse assinado o Tratado de Integração,
Cooperação Econômica e Desenvolvimento,
que estabeleceu o prazo de dez anos para a remoção
das tarifas ao comércio bilateral de bens e serviços.
A intensificação das relações entre
Brasil e Argentina englobou progressivamente o Uruguai, país
já economicamente integrado a seus vizinhos devido ao
seu tamanho reduzido e ao seu posicionamento geográfico
estratégico. As estreitas relações entre
Argentina e Uruguai já havia levado ambos os países
a firmar o Convênio Argentino-Uruguaio de Cooperação
Econômica. A iniciativa brasileira deu-se em meados da
década de 1980, com os acordos comerciais e o convênio
de cooperação científica e tecnológica
firmados por Sarney e Julio María Sanguinetti, presidente
uruguaio, em 19 de julho de 1986. O encontro dos três
presidentes ocorreu no dia 6 de abril do ano seguinte, com a
assinatura da Decisão Tripartite nº 1, na qual se
expressou a vontade de integração por parte destes
países.
Contudo, tanto Alfonsín quanto Sarney estavam em final
de mandato e enfrentavam intensas crises econômicas internas
marcadas por processos de alta inflação que, em
ambos os países, aproximava-se perigosamente de uma hiperinflação.
Como conseqüência, o projeto de criação
de um mercado comum restringiu-se, até a década
seguinte, aos tratados firmados por ambos sobre o assunto e
aos vários acordos setoriais que permitiram o aprofundamento
das relações comerciais entre Argentina e Brasil.
No entanto, as relações comerciais bilaterais
responderam favoravelmente a esses acordos e de 1986 a 1990
o volume comercial entre os dois países cresceu 54%7.
2.2 - As Negociações do Tratado
de Assunção
Carlos Saúl Menen e Fernando Collor de Melo, respectivamente
Presidentes da Argentina e do Brasil, promoveram significativas
liberalizações comerciais unilaterais no início
da década de 1990. Esta nova política era vista
como parte do processo de reformas estruturais que esses presidentes
pretendiam realizar em seus países, sob a influência
das recomendações liberais que vieram a ser conhecidas
como Consenso de Washington. Esta nova etapa comercial contribuiu
não apenas para a intensificar o comércio bilateral
argentino-brasileiro mas também para a acelerar a criação
da área de livre comércio no Cone Sul.
Neste sentido, Collor e Menen anteciparam para o final de 1994
a constituição de uma União Alfandegária.
O acordo foi firmado no âmbito da Ata de Buenos Aires,
assinada em de julho de 1990 e o calendário de diminuição
de tarifas foi definido no dia 4 de dezembro do mesmo ano. Sua
implementação começaria em menos de um
mês e instituía a aplicação de uma
preferência tarifária mútua de 40%. Do lado
institucional, os dois presidentes subscrevem na ALADI, em 20
de dezembro de 1990, o Acordo de Complementação
Econômica nº 14 (ACE 14), o qual viria a servir de
base jurídica ao mercado comum.
Os novos governos do Cone Sul mudaram o ritmo e a natureza do
processo de integração. Os prazos encurtaram,
os objetivos davam grande ênfase para os aspectos econômicos.
Por outro lado, foram firmados novos compromissos, como a coordenação
macroeconômica conjunta, a harmonização
judicial e a criação de salvaguardas comerciais.
Ou seja, os governos argentino e brasileiro passaram a se ver
não apenas como parceiros de comércio mas como
o eixo do futuro Mercado Comum do Sul.
Tratava-se de uma experiência distinta da ALALC, na qual
não havia um grupo restrito de membros dando suporte
à associação como um todo. Modelo semelhante
poderia ser encontrado na União Européia, cujo
centro baseava-se no estreitamento comercial e diplomático
entre Alemanha e França. Sem estes, o bloco europeu seria
inviável, da mesma forma que os laços entre a
Argentina e o Brasil eram fundamentais para o Mercosul.
Estabelecido tal eixo, a idéia do Mercosul começou
a ganhar forma, principalmente no que se refere aos demais membros
e associados. O contato com o Paraguai foi feito pela Argentina
no ano seguinte à consolidação das relações
com o Uruguai. Em 28 de novembro de 1989, Menen e Andrés
Rodríguez, presidente paraguaio, assinam três acordos
de complementação econômica e de fornecimento
de energia. Nesta ocasião, foi divulgada uma declaração
conjunta na qual expressava-se o desejo mútuo de aproximação.
O estreitamento econômico entre Paraguai e Brasil era
mais antigo: havia se estabelecido ainda na década de
1970, com a construção da Usina Hidrelétrica
de Itaipu.
A adesão formal do Uruguai e Paraguai ao processo de
integração regional ocorreu um ano depois, em
5 de setembro de 1990, quando ambos incorporaram-se ao grupo
de trabalho que estudava a implementação, a partir
de 1995, da união aduaneira. Doze dias depois, os quatro
países apresentaram uma proposta conjunta à Iniciativa
para as Américas, o projeto de união comercial
no continente americano anunciado pelo presidente norte-americano
George H. W. Bush. A contribuição do Cone Sul
sugeria a inclusão do livre acesso ao conhecimento tecnológico
norte-americano. Ficava patente, assim, que o grupo de países
latino-americanos não se limitaria ao comércio
regional, também apresentaria ao cenário internacional
posições conjuntas de seu interesse.
A incorporação formal do Paraguai e Uruguai no
futuro mercado comum foi promulgada no Tratado de Assunção,
assinado em 26 de março de 1991. Nele se confirmou para
o final de 1994 a constituição do mercado comum
e se estabeleceu o nome do bloco como Mercado Comum do Sul (Mercosul).
Dando prosseguimento às resoluções conformadas
na Ata de Buenos Aires, estabeleceu-se um regime de origem geral,
um sistema de solução de controvérsias
e cláusulas de salvaguardas. Para tanto, foi desenhada
a estrutura institucional do Mercosul.
2.3 - Mercosul: Instituições e
Estrutura
O Mercosul caracteriza-se por um reduzido grau de institucionalidade
e pela inexistência de órgãos decisórios
supranacionais. Esta é uma das principais diferenças
entre as concepções do Mercosul e da União
Européia. Esta é organizada em órgão
supranacionais, por conseqüência independentes dos
governos do Bloco. No Mercosul, em contraste, todas as resoluções
são desenvolvidas e ratificadas por representantes governamentais
dos quatro países que o constituem, à exceção
do Foro Consultivo Econômico e Social que tem apenas o
poder de fazer recomendações ao Grupo Mercado
Comum.
Se por um lado a ausência de instituições
supranacionais garante ao bloco flexibilidade, por outro dificulta
a resolução de eventuais conflitos entre seus
membros. O Mercosul vive desde o início esta contradição:
flexibilização das resoluções e
crescente conflito entre os estados membros - principalmente
entre Brasil e Argentina - no que diz respeito a acordos setoriais,
política cambial e relacionamento econômico com
países extrabloco.
A estrutura institucional do Mercosul é baseada em seis
órgãos, a maior parte dos quais - Conselho do
Mercado Comum, Grupo Mercado Comum, Comissões de Comércio
do Mercosul e Comissão Parlamentar Conjunta - criada
no âmbito do Tratado de Assunção. O Foro
Consultivo Econômico e Social é proveniente do
Protocolo de Ouro Preto, assinado em 17/12/1994, o qual será
vislumbrado adiante, e a Secretaria Administrativa do Mercosul
foi instituída em dezembro de 1996. Os referidos órgão
são discriminados no Quadro 1, a seguir.
Quadro 1
Estrutura Institucional do Mercosul
| Órgão |
Designação |
Subdivisão |
Característica |
| Conselho
do Mercado Comum |
Órgão
supremo do Mercosul que estabelece a orientação
política do processo de integração e se decide os
meios pelos quais os objetivos finais dos tratados
e acordos relativos ao mercado comum serão alcançados |
Reuniões
de Ministros |
Ministros
de Estados deliberam sobre assuntos específicos
de suas áreas. O processo decisório é baseado no
princípio da unanimidade. |
| Foro
de Consulta e Concentração Política |
Membros
das chancelarias dos quatro países dão apoio e desenvolvem
as resoluções das Reuniões de Ministros |
| Grupo
Mercado Comum |
Órgão
executivo do Mercosul. Responsável por acompanhar
o cumprimento dos acordos e protocolos firmados
no âmbito do Tratado de Assunção, bem como por desenvolver
programas de trabalho para negociações sobre o avanço
do mercado comum e negociar em nome do bloco com
países não-membros. O grupo pronuncia-se por meio
de Resoluções. |
Subgrupos
de Trabalho em: Comunicação, Aspectos Institucionais,
Regulamentos Técnicos e Avaliação da Conformidade,
Assuntos Financeiros, Meio Ambiente, Indústria,
Agricultura, Energia e Mineração, Assuntos Laborais,
Emprego e Segurança Social, Saúde, Investimentos,
Comércio Eletrônico e Acompanhamento da Conjuntura
Econômica Comercial |
| Comitês
de: Cooperação Técnica, Diretores de Aduana e Sanidade
Animal e Vegetal |
| Grupo
Ad Hoc sobre: Açúcar, Relacionamento Externo,
Compras governamentais e Concessões; nas Reuniões
Especializadas sobre: Ciência e Tecnologia, Turismo,
Comunicação Social, Gênero, Autoridade de Aplicação
em Matéria de Drogas, Prevenção do Uso Indevido
e Reabilitação de Dependentes de Drogas; Promoção
Comercial, Municípios/Intendências do Mercosul e
Infra-estrutura |
| Grupos
de: Serviços, e Aperfeiçoamento do Sistema de Soluções
de Controvérsias |
| Comissão
Sociolaboral |
| Comissões
de Comércio do Mercosul |
Acompanhar
e garantir a aplicação dos instrumentos de política
comercial dentro do bloco e com países não-membros.
A Comissão de Comércio do Mercosul pronuncia-se
mediante Diretrizes e Propostas ao Grupo Mercado
Comum. |
Comitês
Técnicos em: Tarifas, Nomenclatura e Classificação
de Mercadorias, Assuntos Aduaneiros, Normas e Disciplinas
Comerciais, Políticas Públicas que Distorcem a Competitividade,
Defesa da Concorrência, Defesa do Consumidor |
| Comitê
de Defesa Comercial e Salvaguardas |
| Comissão
Parlamentar Conjunta |
Formada
por membros dos Parlamentos dos países integrantes
do Mercosul. Seu caráter é deliberativo e consultivo.
A Comissão Parlamentar Conjunta pronuncia-se por
meio de formulações de Declarações, Disposições
e Recomendações. |
| Foro
Consultivo Econômico e Social |
Nele
são representados setores econômicos e sociais dos
países membros do Mercosul. Trata-se do único órgão
do bloco com representantes do setor privado. Pronuncia-se
por meio de Recomendações ao Grupo Mercado Comum. |
|
3 - A Implementação do Mercosul
3.1 - O Apogeu: Redução de Barreiras
Tarifárias
O período contido entre 1991 e 1996 pode ser considerado
o apogeu do Mercosul. Nele ocorreram notáveis avanços
nos acordos de integração e no intercâmbio
comercial. A quantidade comercializada intrabloco triplicou
de 1990 a 1997. Se considerarmos o comércio entre Brasil
e Argentina, a elevação no mesmo período
foi superior a cinco vezes.
A primeira etapa do programa de diminuição de
tarifas, previsto no Tratado de Assunção, ocorreu
em 30 de junho de 1991, quando aprovou-se a redução
tarifária de 47% sobre os produtos dentro do bloco. O
segundo percentual automático de eliminação
de tarifas, de 54%, entrou em vigor em dezembro do mesmo ano.
O modelo do processo de integração, influenciado
pela onda liberal da década de 1990, não previa
mecanismos para compensar perdas ou financiar conversões
em segmentos prejudicados com a integração. Este
considerava que o mercado resolveria tudo. Por outro lado, o
processo de redução das barreiras tarifárias
não foi implementado sem reações contrárias
de setores negativamente afetados dentro dos países membros,
cuja pressão por vezes é suficiente para impelir
seus governos a retrocederem no processo de integração
comercial.
Os conflitos com o processo de liberalização comercial
acompanharam, com maior ou menor intensidade, o Mercosul durante
toda a sua existência. Mas, desde dezembro de 1991, com
o regime automotriz argentino, eles ficaram mais intensos. Nele
o governo argentino fixou cotas para a entrada de veículos
e concedeu a redução da tarifa de importação
de componentes desta indústria mediante o comprometimento,
por parte das montadoras, de investir naquele país e
exportar.
Mas a integração obteve também alguns sucessos.
Novos acordos setoriais e políticas específicas
foram assinados, o que contribuiu para a harmonização
de normas e padrões técnicas dos países
membros. Pode-se citar, neste contexto, a Declaração
de Canela, de 20 de fevereiro de 1992, na qual os membros do
bloco harmonizaram suas posições na ECO-92. Posteriormente,
em junho, o Conselho do Mercado Comum estabeleceu o Plano Trienal
para o Setor Educação no Contexto do Mercosul,
a partir do qual foram definidas as áreas estratégicas
para a cooperação e desenvolvimento de programas
educacionais. Nesta mesma ocasião, os dois grandes do
Mercosul ratificaram o Tratado para o Estabelecimento de um
Estatuto das Empresas Binacionais Brasil-Argentina.
O ano de 1993 foi também intenso em acordos. No início
desse ano, durante a 1ª Reunião Especializada em
Ciência e Tecnologia, criou-se o plano de ação
para a integração científica e tecnológica.
Em maio, Itamar Franco, sucessor de Collor no Palácio
do Planalto, e Menen assinaram acordos e protocolos anexos ao
tratado de integração bilateral referentes a transporte
terrestre, empresas binacionais, energia e indústria
automotriz.
A terceira, quarta e quinta rodadas de diminuição
das barreiras tarifárias previstas no Tratado de Assunção
foram cumpridas com sucesso entre junho de 1992 e dezembro de
1993. Durante este período, as tarifas do comércio
dentro do Mercosul foram reduzidas 82%.
Em junho de 1993 iniciou-se, também, a discussão
de temas de comércio intramercosul de grande relevância:
a Tarifa Externa Comum, as políticas sobre práticas
desleais de comércio e a redução da defasagem
cambial entre os mercados integrantes do bloco. Neste ano foram
aprovados o Regulamento contra Práticas Desleais de Comércio
e os mecanismos de consultas para processos antidumping e foram
empreendidas negociações sobre a Tarifa Externa
Comum.
A partir destes acordos, criou-se a TEC - Tarifa Externa Comum
-, cujo projeto foi aprovado em 5 de agosto de 1994, com início
de sua implementação previsto para janeiro de
1995. O acordo divide-se em cláusulas específicas
para diferentes setores. A grande dificuldade desta era compatibilizar
interesses de países com estruturas industriais muito
distintas. Nesse sentido, os países menores tiveram tratamento
privilegiado, permitindo um período maior de transição
até a implementação das novas tarifas.
Por ocasião da assinatura do Protocolo de Ouro Preto,
realizada em dezembro de 1994, foram concluídos os acordos
para aplicação integral da TEC e, ainda, deu-se
personalidade jurídica internacional e completou-se a
estrutura institucional do Mercosul.
Mas se a implantação da TEC ampliava o potencial
de comércio intra-regional, esta também implicava
grande liberalização comercial unilateral do Brasil
para países não-membros do bloco. O processo de
redução de barreiras tarifárias completou-se
em dezembro de 1994 com a eliminação, por parte
da Argentina, da alíquota da taxa de estatística
nas importações do Mercosul e de terceiros países.
Com isso, cumpriu-se o cronograma de desagravação
tarifária conformado no Tratado de Assunção,
extinguindo-se a alíquota do imposto de importação
de produtos comercializados entre os países membros.
Os dois anos que se seguiram à finalização
do processo de diminuição de barreiras tarifárias
no Mercosul marcaram também o fim de um período
no bloco. O crescimento do comércio intra-regional baseou-se
não apenas nas reduções tarifárias
mas também em uma conjuntura econômica internacional
favorável, com entradas de capital externo que compensavam
eventuais desequilíbrios comerciais. Ademais, o Plano
Real no Brasil provocou elevados déficits na balança
comercial no triênio 1995-1997 que beneficiaram principalmente
a Argentina.
A Crise Asiática de 1997, todavia, desencadeou uma diminuição
dos fluxos de liquidez internacional, tornando cada vez mais
insustentável a conjuntura econômica externa dos
países da região, e em particular a brasileira.
Naquele momento terminava a apogeu do Mercosul, iniciando um
período de crises no qual se tornou patente a debilidade
do bloco no que diz respeito à coordenação
macroeconômica.
3.2 - Apogeu e Crise: a Questão da Coordenação
Macroeconômica
O Mercosul nunca conseguiu um mínimo de coordenação
macroeconômica na região. Ao contrário da
União Européia, cuja construção
sempre conciliou integração comercial e coordenação
macroeconômica, o Mercosul preteriu a segunda pela primeira.
Nunca houve na região uma tentativa séria de coordenação
de taxas de câmbio, como foi feita na Europa, tendo como
referência o marco alemão. É verdade que
as moedas da região são mais frágeis do
que as das economias da Europa Ocidental. O fato, contudo, é
que diplomatas e economistas do bloco latino-americano nunca
procuraram estabelecer as bases macroeconômicas para a
integração monetária.
Diferentemente da experiência européia, aqui não
se estabeleceram metas para índices macroeconômicos
como dívida pública, inflação e
taxa de câmbio. A idéia de coordenação
da política monetária limitou-se à apresentação
de pálidos projetos sobre moeda única desprovidos
de meios para viabilizá-la.
A primeira destas iniciativas ocorreu em 17 de julho de 1987,
quando Raul Alfonsín e José Sarney expressaram
a intenção comum de criar uma moeda única,
conforme dito anteriormente. Entretanto, o acelerado processo
de integração comercial verificado na época
abafou o projeto, o qual mostrava-se pouco factível em
meio aos acentuados processos inflacionários então
verificados em ambos países.
A questão de coordenação macroeconômica
só voltou à pauta na 10ª reunião do
Grupo Mercado Comum, realizada em junho de 1993. Nela foi abordada
a necessidade de redução da defasagem cambial.
Na época, o peso argentino já estava atrelado
ao dólar, enquanto que o câmbio brasileiro ainda
era indexado à inflação. Com isso a moeda
argentina valia mais que a brasileira. A conseqüência
foi um déficit comercial argentino acumulado de US$2,422
milhões no biênio 1992-19938.
O encontro também incluía políticas sobre
práticas desleais de comércio e a Tarifa Externa
Comum, assuntos que tiveram procedimento, ao contrário
da discussão relacionada ao câmbio. Novamente,
a coordenação macroeconômica foi eclipsada
pela integração comercial.
O desequilíbrio comercial entre Brasil e Argentina foi
revertido de maneira notável a partir de 1995, logo após
a implementação do Plano Real. Neste período,
uma grande entrada de capital externo sobrevalorizou o câmbio
brasileiro. Com isso, as exportações brasileiras
para a Argentina diminuíram em 1995, voltando a elevar-se
no ano seguinte, enquanto que a taxa de crescimento das exportações
argentinas para seu vizinho do norte cresceu ligeiramente. A
partir de 1996, o aumento das exportações de ambos
os lados foi praticamente o mesmo, mas a Argentina passou a
exportar mais que o Brasil. O resultado foi um déficit
brasileiro no intercâmbio bilateral de US$ 17,337 milhões
durante o triênio 1995-1997.
Assim, no que tange ao comércio Brasil-Argentina, pode-se
dividir o apogeu do Mercosul entre antes e depois do Plano Real.
Dito de outra forma, a política monetária brasileira
demonstrou-se de fundamental importância para a dinâmica
do comércio entre as duas maiores economias do bloco,
o qual se constitui no alicerce do Mercosul como um todo. A
mudança de 1994 pode ser vislumbrada no Gráfico
1.

O desequilíbrio comercial brasileiro não se restringia
à Argentina. Em 1995, o país acumulou um déficit
comercial de US$3,466 milhões, dos quais US$1,306 milhões
devia-se ao seu maior parceiro do Mercosul. Frente a isto, a
equipe econômica brasileira mudou a política cambial.
Assim, a partir de 1995 institui-se bandas cambiais móveis
que abriam espaço para pequenas desvalorizações
mensais.
Os efeitos das minidesvalorizações brasileiras
para o déficit comercial com a Argentina foram modestos:
este diminuiu de US$1,306 milhões em 1995 para US$1,288
milhões em 1996, US$928 milhões em 1997 e US$734
milhões em 1998. Seu efeito em relação
à balança comercial como um todo, contudo, foi
inócuo, uma vez que esta acumulou déficits de
US$3,466 milhões em 1995, US$5,554 milhões em
1996, US$8,357 milhões em 1997 e US$6,607 milhões
em 1998.
O Brasil não procurou negociar com seus vizinhos para
responder ao seu desequilíbrio externo. Em momento algum
uma solução conjunta, que fosse a base para algum
tipo de coordenação macroeconômica, foi
seriamente posta em pauta. No entanto, a postura brasileira
não pode ser desvinculada das características
do processo de estabilização argentino e da conjuntura
internacional. O regime cambial instituído por Menen
a partir de um plano econômico do Ministro Cavallo era
rígido e, portanto, pouco suscetível a adaptações.
Por outro lado, a grande liquidez externa financiava com facilidade
o déficit comercial brasileiro. Quanto ao primeiro ponto,
deve-se observar que a hipótese de a Argentina abandonar
a paridade peso-dólar para ingressar em um processo de
unificação monetária parecia fora de questão,
uma vez que naquele país "(...) há uma
concordância bastante ampla em considerar o tipo de câmbio
fixo com o dólar um elemento básico do funcionamento
da economia" (Heymann, 2000, p.404). Isto é,
ou se instalava uma moeda comum ligada ao dólar ou nada
se fazia no tocante à coordenação cambial.
Claramente optou-se pela segunda alternativa.
Em retrospectiva, pode-se constatar que o Brasil não
considerava a opção da moeda única ligada
ao dólar, estivesse ou não sua conta de capital
superavitária o suficiente para manter as reservas constantes.
Isto tornou-se patente com a crise asiática de 1997,
a partir da qual os fluxos de liquidez externa diminuíram.
Como conseqüência, o governo brasileiro adotou uma
postura ativa no sentido de diminuir seu déficit comercial,
a mais polêmica delas foi a medida provisória que
restringia o financiamento das importações de
qualquer origem.
Esta medida, que não excluía os países
do Mercosul, foi duramente criticada pelas autoridades econômicas
e diplomáticas dos demais países membros, o que
forçou sua alteração três dias após
a publicação. De acordo com a nova versão,
as importações inferiores a US$40 mil provenientes
dos parceiros do bloco estariam livres da restrição.
No final de abril de 1997 selou-se o final da crise com a assinatura
entre Brasil e Argentina de acordos referentes a setores sensíveis
dos dois lados. As concessões brasileiras concentravam-se
nos setores automobilístico e de lubrificantes e as argentinas,
em café, pneus e produtos têxteis.
A solução brasileira de 1997 demonstra uma constante
do Mercosul. Ao invés de resolver crises comuns a partir
de soluções conjuntas calcadas em coordenação
macroeconômica, os principais países do bloco tendiam
a agir unilateralmente, o que enfraquecia a coesão dos
membros do Mercosul.
Entretanto, os efeitos negativos da crise asiática não
se restringiam ao comércio intrabloco, uma vez que afetaram
a economia do Mercosul como um todo. A queda nos fluxos de liquidez
externa obrigou os países membros a entrarem em um período
de recessão a partir de políticas macroeconômicas
centradas em juros altos, para atrair capitais externos. O aumento
dos juros reduziu o crescimento econômico, levando a que
as taxas de crescimento do consumo privado da região
diminuíssem sensivelmente a partir de 19979.
Os efeitos combinados da queda no consumo privado e da imposição
de restrições às importações
brasileiras fez com que o comércio entre Brasil e Argentina
se estagnasse em 1997 e 1998, conforme demonstrado no Gráfico
1. Finalizava-se, assim, o apogeu do Mercosul e iniciava-se
sua fase de crise.
No final de 1998, após a crise russa, o Brasil entrou
em um período de acentuado desequilíbrio externo.
As entradas de capital externo, que vinham escasseando desde
1997, praticamente cessaram. As reservas internacionais brasileiras
diminuíram a níveis considerados críticos
e, em janeiro de 1999, o real foi desvalorizado.
Iniciava-se, deste modo, o pior ano do Mercosul. Do ponto de
vista do comércio, o intercâmbio Brasil-Argentina
recuou significativamente. Os produtos argentinos tornaram-se
excessivamente caros no Brasil e o consumo privado brasileiro
encontrava-se deprimido pela recessão de 1999. Por outro
lado, as exportações brasileiras diminuíram
em função da forte instabilidade econômica
pela qual atravessava aquele país. No que se refere à
orientação de política externa, a confiança
dos dois maiores membros do Mercosul no bloco parecia esvair-se,
o que explica a rápida fuga para fora praticada por ambos.
3.3 - O Mercosul e o Mundo
Argentina e o Brasil atribuíam graus de importância
distintos ao Mercosul. Enquanto aquele país considerava
a integração do Cone Sul como uma opção
fundamentalmente comercial, para o segundo tratava-se principalmente
de uma escolha estratégica, através da qual sua
posição de liderança regional poderá
ser construída.
Esta diferença mostrou-se evidente desde a formação
do Mercosul, no início da década de 1990. Naqueles
anos, a Argentina buscou um alinhamento político e econômico
em relação aos EUA, adotando uma nova orientação
externa. Dentre os seus reflexos mais evidentes estão
o esfriamento das relações entre Argentina e Cuba,
a retirada argentina do Movimento de Países Não
Alinhados e o envio de tropas à Guerra do Golfo. Como
resultado, o país foi reconhecido como parceiro preferencial
por parte dos EUA, o que, na visão do governo argentino,
permitia um aumento do grau de confiança daquele país
frente à comunidade financeira internacional, fator de
grande importância para o plano de estabilização.
Do lado brasileiro, em contraste, observou-se uma postura de
aproximação à América Latina como
um todo a partir do Mercosul. Como exemplo pode-se citar o esforço
de Itamar Franco para a criação de uma nunca concretizada
Área de Livre Comércio Latino-Americano (ALCLA),
em 1993, durante a Reunião do Grupo do Rio. Sua consecução
se daria pelo formato "4+1"10,
no qual os países do Mercosul realizariam negociações
com diferentes países da ALADI.
A inclinação argentina para aproximar-se dos EUA
e a brasileira de unir a América Latina sob sua liderança
constituiu-se num ponto fraco das relações entre
os dois países, com conseqüências diretas
para o Mercosul. Por um lado, as aspirações por
parte do Brasil de tornar-se uma potência regional geravam
desconforto na Argentina. Por outro, o estreitamento entre Buenos
Aires e Washington entra em choque com a intenção
brasileira de formar um bloco latino-americano, a partir do
qual buscar-se-ia uma inserção internacional independente.
As ocasiões em que tal discrepância mostrou-se
mais evidente coincidem com os períodos nos quais a integração
do Cone Sul encontrava-se em crise. Por outro lado, durante
momentos favoráveis ao Mercosul as diferentes orientações
externas de Brasil e Argentina tornavam-se menos perceptíveis.
A súbita guinada de Menen na direção de
Washington e, em particular, a aproximação entre
Argentina e EUA em 1993, depois da formação do
NAFTA, foi um fator de perturbação para a integração
do Cone Sul. Nesta época, o comércio bilateral
entre Argentina e Brasil era favorável ao segundo, que
ainda encontrava-se em uma conjuntura de alta inflação.
Por conseqüência, a maioria dos economistas argentinos
preferia uma eventual integração da Argentina
ao NAFTA do que a continuidade da idéia do Mercosul.
Paralelamente, a Argentina passou a figurar, junto com o Chile,
na lista de candidatos para a área de livre comércio
norte-americana. A dicotomia externa entre os maiores países
da América do Sul tornava-se, deste modo, evidente. O
Brasil via o fato de seu vizinho figurar na lista do NAFTA como
uma provocação com prejuízos para a integração
regional, enquanto a iniciativa de Itamar Franco em torno da
ALCLA não agradava a Argentina.
A crise externa do Mercosul em 1993 foi abrandada pelo Plano
Real. A estabilização brasileira melhorou as expectativas
em relação ao bloco. Somava-se a isto o fato que,
após 1995, o comércio entre os dois maiores membros
do bloco passou a ser superavitário para a Argentina.
Neste contexto foi aprovado, em dezembro de 1994, o projeto
da Área do Livre Comércio das América (ALCA),
cujo objetivo era unir todo continente americano em um mercado
comum. A ALCA consistia em um desafio ao Mercosul, uma vez que
sua implementação poderia esvaziá-lo, tornando-o
sem sentido.
Em setembro de 1995, por ocasião da Conferência
Hemisférica realizada na cidade norte-americana de Denver,
os países do Mercosul defenderam em conjunto a formação
de uma área de livre comércio nas Américas
apenas em 2005, a partir da convergência gradual entre
os diferentes blocos econômicos do continente. A proposta,
vitoriosa na conferência, demonstrou a união do
Cone Sul em torno de um posicionamento relativo à ALCA
- desenvolver negociações sobre o bloco americano
preservando o Mercosul, numa tentativa de contrabalançar
a hegemonia norte-americana com a integração latino-americana.
Não por coincidência, aquele foi o ano em que as
expectativas negativas em relação ao Mercosul
foram revertidas. A dinâmica entre as diferentes orientações
políticas de Buenos Aires e Brasília por um lado
e a situação do Mercosul de outro fez-se, portanto,
presente.
O progresso da ALCA foi dificultado pelo Congresso norte-americano,
uma vez que as negociações entre os países
latino-americanos e o EUA dependiam da aprovação,
por parte dos senadores daquele país, do Fast Track.
Com ele, o presidente norte-americano, Bill Clinton, poderia
assinar os acordos relativos à área de livre comércio
das Américas sem que o Congresso pudesse emendá-la,
mas apenas rejeitá-la. Isto é, o Fast Track
aumentava a flexibilidade e o poder de barganha do Executivo
norte-americano. Com a não aprovação deste
instrumento, o livre comércio no hemisfério tornou-se
uma possibilidade longínqua.
Paralelamente às negociações em torno da
ALCA, o Mercosul aproximou-se da União Européia.
O processo iniciou-se em junho de 1994 com a aprovação,
por parte dos ministros das Relações Exteriores
dos países europeus, de medidas para a consecução
de um acordo de cooperação comercial com o Mercosul.
Em novembro daquele ano, o Conselho de Ministros da Comunidade
Européia anunciou o início formal das negociações.
A aproximação se daria por etapas. A primeira
seria reservada a temas de cooperação; na segunda
ocorreria o início de um diálogo político
e na terceira se daria a negociação de uma área
de livre comércio. Esta última foi prevista para
depois de 2001.
Observe-se que a iniciativa partiu da Europa. Tratava-se de
um modo de conservar sua influência no Cone Sul, a qual
se encontrava ameaçada pela aproximação
deste com a América do Norte no âmbito da ALCA.
A isto se somava o aumento do investimento direto realizado
por empresas européias na região, o qual foi estimulado
pelos processos de privatização argentino e brasileiro.
Ou seja, a cooperação comercial entre Mercosul
e União Européia seguia os passos dos investimentos
diretos europeus e reagia à formação da
ALCA.
Do lado latino-americano, a integração com a União
Européia servia como uma maneira de contrabalançar
a hegemonia norte-americana no continente, a qual fazia-se mais
presente com os acordos assinados sob o âmbito da ALCA.
De forma análoga à ALCA, as negociações
entre União Européia e o Mercosul foram esfriadas
a partir de 1996. Em linhas gerais, isto ocorreu por dois motivos.
O primeiro relaciona-se às barreiras comerciais que protegem
os mercados agrícolas europeus. Nos acordos firmados
entre as duas regiões, a Europa não incluiu estes
setores no cronograma de liberalização comercial.
Tal fato era especialmente negativo para os latino-americanos,
uma vez que a maior parte de suas exportações
para os países membros da União Européia
é composta por produtos agrícolas. Tratava-se,
assim, de um empecilho à complementaridade econômica
entre ambos. Desta maneira, os representantes do Mercosul assinalaram
que a inclusão dos agrícolas nas negociações
de livre comércio era fundamental para o prosseguimento
das negociações, as quais perderam dinamismo a
partir de então. O segundo motivo refere-se ao congelamento
da ALCA, o que contribuiu para relaxar o ímpeto europeu
de aproximar-se do Mercosul. Em uma palavra: a disputa pela
região não era mais tão intensa.
Em meio à América do Norte e à Europa,
o Mercosul aproximava-se dos demais países da América
do Sul, principalmente o Chile e a Bolívia. Ambos os
estreitamentos foram implementados através do mecanismo
"4+1". A primeira negociação no modelo
"4+1" incluiu o Chile, cinco anos após o convite
expresso a este país para observar o processo de formação
do Mercado Comum do Sul, em 1/8/1990. As negociações
culminaram, em junho de 1996, no Acordo de Complementação
Econômica entre Chile e Mercosul, o qual estabelecia o
mês de outubro daquele ano para o início de um
processo de redução tarifária linear que
englobava 80% dos itens comercializados por ambas as partes.
Os demais produtos seriam incluídos no livre comércio
em 2006.
A presença chilena no Mercosul era vista com grande apreço
por parte dos demais vizinhos do Cone Sul. A economia daquele
país encontrava-se há anos em meio a um dinâmico
crescimento coerente com uma sólida estabilidade de preços.
Além disso, uma eventual incorporação do
Chile no mercado comum representaria o acesso de seus membros
ao Oceano Pacífico, e conseqüentemente aos mercados
asiáticos.
Contudo, o aprofundamento das relações comerciais
entre EUA e Chile inviabilizou o desenvolvimento do processo
de integração entre este último e seus
vizinhos do Cone Sul. A ruptura ocorreu quando Santiago firmou
acordos especiais com o NAFTA, esvaziando as negociações
do Chile com o Mercosul.
Em relação à Bolívia, a aproximação
de sua economia à do Mercosul ocorreu em dezembro de
1996, na esteira das negociações com o Chile.
Segundo o acordo firmado naquele dia, cerca de 90% dos produtos
intercambiados entre as partes passariam a circular com tarifa
zero em um prazo de dez anos.
Embora a Bolívia não tenha a mesma importância
econômica do Chile para o Mercosul, sua aproximação
era vista com simpatia pelo bloco, principalmente pelo Brasil.
Por um lado, consistiria no avanço da estratégia
de unir a América Latina sob sua liderança. Por
outro, a Bolívia é rica em recursos energéticos,
principalmente no que se refere ao gás natural, produto
relativamente escasso no Brasil. A integração
entre os dois países no que diz respeito à energia
foi desenvolvida à parte do Mercosul, em torno do Gasoduto
Brasil-Bolívia, propriedade da empresa petrolífera
brasileira Petrobrás. Sua construção completou-se
em meados dos anos 1990.
Após os anos de apogeu, o período de crise do
Mercosul, iniciado em 1997, teve como conseqüência
o aprofundamento das diferentes orientações externas
de Brasil e Argentina. Pode-se citar como parte deste processo
a frustrada tentativa argentina de ingressar na OTAN, a qual
fez com que os EUA considerassem este país, ao lado de
Israel, como um aliado militar especial. De maneira similar,
pode-se referir a oposição de Buenos Aires à
candidatura brasileira a uma Cadeira do Conselho de Segurança
da ONU.
A dicotomia externa entre os dois maiores membros do Mercosul
acentuou-se junto com o aprofundamento da crise interna do Mercosul,
desencadeada pela desvalorização do real em 1999.
Como se referiu acima, a resposta de ambos à diminuição
comercial e à perda de confiança do bloco por
parte de seus constituintes foi uma fuga para fora.
A Argentina, por uma lado, assinou com os EUA, em fevereiro
de 1999, o Tratado de Associação, no qual levantava
a possibilidade de dolarizar a economia. Esta decisão
afastou a idéia de criação de moeda única
do Mercosul e significou a radicalização da opção
argentina de alinhar-se aos EUA.
O Brasil, por sua vez, procurou seguir com a união da
América Latina sob sua liderança. Neste contexto
destaca-se a assinatura de acordos comerciais com a Comunidade
Andina e México, através do mecanismo "4+1",
em abril de 1999. Pode-se citar, também, o Protocolo
de Comércio e Investimento com o Mercado Comum Centro-Americano.
Aumentando os seus sócios no âmbito do Mercosul,
o Brasil reduziria a importância relativa da Argentina
dentro do bloco. Nunca, em seus dez anos de existência,
o Mercosul presenciou tão claramente a relação
entre crise interna e dicotomia em suas relações
externas quanto nos anos que se seguiram a 1999.
4 - Integração Econômica
e Política Social no Mercosul
4.1 - Os Países do Mercosul: Uma Comparação
Os países membros do Mercosul guardam profundas diferenças
entre si no que toca suas características sociais e a
magnitude de suas economias e populações. A Tabela
1 demostra tais discrepâncias.
Como se vê na tabela, o Brasil é muito maior do que
seus parceiros do Mercosul, tanto em sua economia quanto em sua
população. Por outro lado, Argentina e Uruguai são
mais ricos do que Brasil e Paraguai no sentido de que as rendas
per capita dos primeiros são maiores do que as dos últimos.
Os países membros do Mercosul também se diferenciam
entre si em função das características estruturais
de suas economias. O Brasil foi o mais bem-sucedido em seu processo
de substituição de importações, possuindo
a maior e mais completa indústria do Mercosul. Contudo,
grande parte das exportações é ainda de produtos
primários ou baseados em recursos naturais.
A Argentina não foi tão bem-sucedida quanto o Brasil
na sua substituição de importações.
A indústria argentina é de menor porte e mais desarticulada
do que a brasileira. Apesar disto, o país tem uma indústria
considerável. Contudo, sua pauta de exportação
tem um peso elevado de produtos primários. O processo de
integração contribuía nesse contexto para
aumentar a exportação de industrializados, particularmente
para o Brasil.
Devido ao tamanho reduzido de seu mercado interno, o Uruguai não
implementou uma política de substituição
de importação comparável às experiências
brasileira e argentina. Seu desenvolvimento baseou-se em produtos
primários, principalmente os ligados à pecuária.
Sua indústria é composta basicamente por setores
de processamento de bens primários. A posição
geográfica daquele país, entre a Argentina e o Brasil,
foi responsável pelo recente crescimento das atividades
relacionadas ao turismo, atualmente o maior componente das exportações
de bens e serviços do país.
O Paraguai é o membro mais pobre do Mercosul. O país
nunca teve um processo de substituição de importações,
de forma que a agricultura representa a maior parte do setor produtivo
e 85% de suas exportações. Nas duas últimas
décadas, cresceu a importância do comércio
a partir da reexportação de bens de consumo duráveis
para a Argentina e sobretudo para o Brasil.
4.2 - Convergência Social e Econômica
no Mercosul
Do ponto de vista de desempenhos sociais, contudo, os países
membros do Mercosul podem ser hierarquizados de maneira distinta.
Analogamente à renda per capita, Argentina e Uruguai
encontram-se em um patamar superior ao Paraguai e Brasil. Por
outro lado, o Brasil apresenta o pior desempenho nos indicadores
sociais selecionados.
Do ponto de vista de saúde pública, os dados demostram
que, de 1980 a 2000, houve recuperação da posição
brasileira em relação aos demais membros do Mercosul.
Contudo, este país continuou apresentando os piores índices.
A convergência mais expressiva foi a relativa à
esperança de vida, como demonstra a Tabela 2.

A diferença entre os dados relativos aos dois maiores países
do bloco, Brasil e Argentina, decresceu 23,53%. A diminuição
da distância entre o pior e o melhor indicadores, respectivamente
o brasileiro e o uruguaio, foi menor: 18,42%. Nota-se, contudo,
a considerável magnitude da desigualdade entre ambos, a
qual passou de 11,99% em 1980 - 1985 para 9,13% em 1995 - 2000.
Os resultados relativos à mortalidade infantil são
ainda mais discrepantes, como pode ser vislumbrado na Tabela 3.

A diferença entre os dados da Argentina e do Brasil diminuíram
36,65%. Contudo, o indicador uruguaio ultrapassou o argentino
no período, tornando-se o melhor do Mercosul em seu final.
Portanto, se considerarmos a diferença entre o pior e o
melhor índice no começo e no final do período,
teremos que relacionar o brasileiro com o argentino em 1980 -
1985, e o brasileiro com o uruguaio em 1995 - 2000. Feito isto,
vemos que a distância entre o pior e o melhor diminuiu 23,29%.
É gritante a discrepância entre Brasil e Uruguai
no final do período em estudo: 141,14%.
O Mercosul é ainda mais desigual no que toca os indicadores
relacionados ao analfabetismo, os quais estão expressos
na Tabela 4.

Em 2000, a taxa de analfabetismo brasileira, a maior do Mercosul,
é nada menos que 568,18% superior a do Uruguaia, a menor
do bloco. Por outro lado, este foi o indicador social no qual
mais houve convergência entre os países. Ao longo
do período em estudo, a diferença entre os dados
brasileiros em comparação com os uruguaios e argentinos
diminuiu 37,81% e 40,21%, respectivamente.
O fato de o Brasil apresentar índices sociais tão
inferiores aos dos demais países membros do Mercosul, inclusive
aos do Paraguai, cuja renda per capita é a menor do bloco,
deve-se em grande parte à sua má distribuição
de renda. Os dados a este respeito encontram-se na Tabela 5.

Ao contrário dos indicadores sociais, a distribuição
de renda dentro das economias que compõem o Mercosul piorou
no período em estudo. Outra diferença é o
fato de a renda paraguaia ser melhor distribuída do que
a argentina. O Uruguai figura como economia mais justa do bloco,
o que explica parcialmente seus bons indicadores sociais, os melhores
da região.
No que se refere ao desemprego, contudo, o resultado é
inverso tanto aos apresentados pelos indicadores sociais quanto
aos referentes à distribuição de renda. Séries
a este respeito são expressas na Tabela 6.

A despeito da melhora nos indicadores sociais, o desemprego aumentou
em todos os países da região durante o período
estudado. O quadro de 1999 é também distinto do
apresentado pelos referidos indicadores e pela distribuição
de renda no que se refere à hierarquização
dos países membros do Mercosul. O Brasil apresenta a menor
taxa de desemprego, enquanto a maior é verificada na Argentina.
Em relação a este último, destaca-se o acentuado
aumento de 457,69% do desemprego argentino, o maior do Mercosul.
A desocupação da mão-de-obra na região
deve ser vista sob a luz das taxas de crescimento de suas economias,
as quais estão contidas na Tabela 7.

Como pode ser visto, a região alterna anos de crescimento
com períodos de recessão. No entanto, a Argentina
o faz com maior intensidade, o que explica parcialmente o aumento
do seu desemprego. No Paraguai e no Uruguai, em contraste, tal
tendência é mais suave, o que se reflete na relativa
estabilidade de suas taxas de desocupação. Em síntese,
as economias do Mercosul apresentaram crescimentos erráticos
desde do início do processo de integração
do Cone Sul, em 1986. Como conseqüência, os níveis
de desemprego da região têm crescido, principalmente
na Argentina.
No lado dos indicadores sociais, destaca-se a desigualdade entre
os países membros do bloco, com a Argentina e o Uruguai
em um patamar superior do Paraguai e do Brasil. Este último,
apesar das melhoras verificadas nas duas últimas décadas,
continua muito pior do que os demais neste aspecto. A convergência
social dos países do Mercosul vem se mostrado lenta, aquém
da necessária para uma homogeneização das
condições de vida no bloco.
5 - Conclusão: O Futuro do Mercosul
No início de um novo século ainda não está
claro se o Mercosul levará à integração
dos povos da região. Este tem uma dimensão comercial,
embora sejam suas dimensões política e social
que mobilizam a esperança no seu futuro. Uma integração
econômica que considere apenas os interesses empresariais,
e portanto surda às aspirações populares,
dificilmente será bem-sucedida, dadas as resistências
que provocará em cada estado nacional. Por outro lado,
as contradições nas estratégias de desenvolvimento
nos países da região dificultam qualquer previsão
quanto aos rumos desse processo.
Os dados sociais da região mostram que a Argentina e
o Uruguai têm melhores indicadores que o Paraguai e o
Brasil. Por outro lado, a radicalização do projeto
liberal argentino tem levado à deterioração
das condições sociais. Embora no Brasil o liberalismo
ideológico não tenha ido tão longe como
na Argentina, a situação econômica e social
é ainda muito difícil no primeiro. Por outro lado,
o Uruguai, que tem os melhores indicadores sociais da região,
sofre com as dificuldades econômicas de seus parceiros
do bloco por ser uma economia de pequeno porte, fortemente integrada
no Cone Sul. Ademais, o Paraguai, o mais pobre da região,
seria o mais beneficiado se fosse possível desenvolver
um consenso mínimo para um plano coordenado de desenvolvimento
regional.
Em um quadro tão incerto, o papel da mulher nesse processo
e os problemas de integração social associados
à discriminação de setores da sociedade,
seja por razões de gênero, etnia ou condição
social, não têm sido discutidos com a ênfase
que o tema merece. A discussão do processo de integração
econômica no Cone Sul é também o espaço
para a discussão da sociedade que queremos criar na região.
Integração regional reduzida a questões
econômicas será o fracasso no sonho de transformar
esta complexa relação entre nações
irmãs neste pedaço da América na semente
de uma nova sociedade.
Notas
1 - Professor do Instituto
de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE-UFRJ).
2
- Mestrando em
economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
3 - Dados de Dias-Alejandro, 1985, p.98-101.
4 - Ver dados de Prado, 1989, p.1583-84.
5 - O governo militar argentino manteve uma relação
tumultuada com o Chile, inclusive com ameaças de conflito
militar, e de desconfiança com o Brasil, particularmente
com a construção da Usina Hidrelétrica
de Itaipu.
6 - Campbell, Rozemberg e Svarzman, 2000, p. 47.
7 - FMI, 1993, p. 83.
8 - FMI, 1999, p. 86.
9 - Na Argentina, a taxa de crescimento do consumo privado em
1998 e 1999 foi de 1,7% e -4,6%, frente a 5,6% e 7,7% em 1996
e 1995, respectivamente. No Brasil, a redução
foi mais suave: 2,0% em 1996, 2,8% em 1997, -2,1% em 1998 e
0,2% em 1999 (Cepal, 2000, p. 67).
10 - Significa que o poder de negociação é
dos quatro países do MERCOSUL, mais os Estados Unidos,
uma vez que o MERCOSUL não funciona como personalidade
jurídica autônoma.
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