Situação Sócio-Econômica da Mulher
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José Pastore - Universidade de São Paulo
(retirado do site do Ministério da Justiça/Conselho Nacional de Direitos da Mulher)
Três
Décadas de Mudança
Em meados dos anos 60, pegava fogo o movimento feminista liderado por Betty Fridan. A literatura dominante era do tipo reivindicatória e doutrinária. Os dados mostravam, realmente, uma enorme discrepância entre as regalias dos homens e das mulheres.
No caso brasileiro isso era patente. Marvin Harris, antropólogo americano, tinha colhido os seguintes dados:
No Brasil, o marido e os filhos mais velhos comem em primeiro lugar e recebem a melhor parte da comida.
As mulheres brasileiras - mãe e filhas - esperam que eles terminem para depois começar a comer.
Em público, espera-se que as mulheres fiquem quietas e em segundo plano (Harris, 1956).
São constatações simplesmente escandalosas para os dias atuais. Mas, essa realidade valeu por muito tempo. Um pesquisador dos costumes no meio rural brasileiro testemunhou inúmeras cenas do seguinte tipo:
"O dia estava frio e chuvoso; o pai e o filho passavam a cavalo, cobertos por um capote, enquanto que a mãe e filha, sem sapatos, iam a pé atrás dos dois" (Santos, 1966).
Bernard O. Rosen, sociólogo americano, que também andou por estas bandas estudando a família brasileira, concluiu:
"Não se espera da mulher que ela seja companheira do esposo. Pelo contrário, as suas principais atividades giram em torno da criação dos filhos e da prestação de serviços ao marido" (Rosen, 1963).
Emílio Willems, catarinense de origem, formado na Alemanha e professor de antropologia social em São Paulo, havia descoberto que os valores sociais dos homens compunham o que chamou de "complexo da virilidade" enquanto que os das mulheres compunham o "complexo da virgindade" (Willems, 1953).
Esperava-se da mulher que ela obedecesse ao marido e não tivesse iniciativas públicas de qualquer espécie.
Foi no meio da acalorada polêmica do feminismo que, em 1966, decidi estudar o assunto com base em dados. Entrevistei uma amostra de 321 casais (maridos e respectivas esposas) e acabei observando a mesma coisa: as mulheres brasileiras tinham um posicionamento bem mais baixo do que os homens numa escala de modernidade usada naquela pesquisa (Pastore, 1970). As mulheres definiam para si uma série de papéis submissos e dependentes dos homens. O conformismo era o traço predominante no relacionamento entre as mulheres.
Mas o que aconteceu de lá para cá? Quanto mudou na vida da mulher na ao longo dessas três décadas? Como analisar a evolução dos vários papéis da mulher na sociedade atual? O que esperar para as próximas três?
Os
Avanços Educacionais
Para quem estudou o passado e teve a sorte de viver até hoje, vê-se que a história deu uma grande virada e tudo indica que o próximo século será o século das mulheres. Vejamos alguns dados.
As estatísticas mostram que, em quase todos os países, as meninas brilham mais do que os meninos na escola.
As mulheres de hoje são muito mais educadas do que foram há trinta anos atrás e já ultrapassam os homens. Nos Estados Unidos, a proporção de homens com nível universitário passou de 16% em 1970 para 28% em 1998. Entre as mulheres, o salto foi muito maior - de 11% para 29%.
O Brasil apresenta as mesmas tendências. Entre os que têm curso universitário incompleto, 55% são mulheres e 45% são homens. No caso de curso completo, as mulheres superam os homens - de 51% para 49%.
O rendimento escolar das meninas brasileiras é superior ao dos meninos. No primeiro grau, a taxa de aprovação feminina é de 81%; a masculina, 78%. No segundo grau, 88% para as mocinhas e 80% para os rapazes.
A educação está facilitando a participação crescente da mulher no mercado de trabalho. Mas não é só isso. Os investimentos em educação da mulher têm impactos que vão muito além do seu progresso pessoal.
As mulheres, quando educadas, cuidam melhor da sua saúde e da saúde da família, em especial, das crianças. Mães educadas transferem bons hábitos de higiene para os filhos e orientam suas vidas de modo mais seguro. Elas ajudam as crianças na escola, reduzindo a repetência e a evasão. Ou seja, a educação da mulher se transfere para as gerações seguintes.
Além disso, a educação leva as mulheres a terem menos filhos, diminuindo o risco da gravidez indesejada e fazendo baixar a taxa de fertilidade da sociedade.
Muitos perguntarão: mas isso não acontece com os homens bem educados? Não. As pesquisas mostram que os homens, com igual educação, têm uma influência muito menor na taxa de fertilidade da mulher, no tamanho da família e na transmissão de bons hábitos para as crianças. Em outras palavras, a mulher ocupa uma posição estratégica na modelagem da sociedade.
Essas externalidades têm um enorme impacto na vida das pessoas e na promoção do bem estar. Os números são impressionantes:
No Brasil, a taxa de fertilidade das mulheres mais educadas (com mais de 10 anos de estudo) é de apenas dois filhos por mulher. Entre as analfabetas, é de 7 filhos por mulher.
Entre as mulheres mais educadas, a taxa de fertilidade desejada é de 2 filhos por mulher e a que ocorre de fato é de 2,2. Entre as analfabetas, a desejada também é de 2 filhos, mas a que ocorre é de 6,2 filhos por mulher.
Entre as mulheres mais educadas, a abstinência sexual depois do parto é respeitada por 3,5 meses, em média. Entre as analfabetas, é de apenas 1,5 mês.
Entre as adolescentes mais educadas (13-20 anos), o número de grávidas não chega a 20 em cada mil mulheres. Entre as analfabetas, é quase 200 por mil.
É isso que leva a maioria dos pesquisadores a concluir que investir em mulher dá certo. Trata-se de um bom negócio para ela e para a sociedade em geral. O efeito multiplicador de uma boa educação na mulher é muito mais amplo do que entre os homens.
As
Trajetórias Profissionais
O que está acontecendo com as mulheres no mercado de trabalho?
Nos últimos 15 anos, entraram no mercado de trabalho do Brasil mais de 12 milhões de mulheres. Em 1998, a proporção de mulheres ocupadas era de 42%. Na década de 60, foi de apenas 23%.
A expansão foi extraordinária. O trabalho da mulher fora de casa vem sendo estimulado pela demanda do mercado e pelo crescimento da sua competência profissional que decorre, em grande parte, da melhoria educacional.
O trabalho está se universalizando entre as mulheres. Na década de 60, as mulheres que trabalhavam fora de casa, em sua maioria, eram jovens, solteiras e sem filhos. Hoje são mulheres mais velhas, casadas e mães.
Nos dias atuais, mais de 30 milhões de mulheres trabalham fora de casa no Brasil. Cerca de 50% estão no comércio, serviços e administração; 22% estão na agricultura; 16% na área social; 9% na indústria; 3% em outros setores.
Para a maioria dos casos, os salários das mulheres brasileiras são cerca de 25% menores do que os homens - para a mesma jornada de trabalho e com o mesmo nível educacional.
As mulheres estão pouco representadas nos estratos de salários altos. Entre os homens que trabalham em tempo integral (44 horas por semana), cerca de 10% ganham mais de 10 salários mínimos; entre as mulheres, são apenas 6%.
Em contrapartida, elas predominam nos estratos de salários mais baixos. Quase a metade das mulheres que trabalham em tempo integral (44 horas por semana) ganham até 2 salários mínimos; entre os homens, essa proporção é menos de 40%.
Se, de um lado, as diferenças salariais permanecem desfavoráveis, há de se reconhecer que o poder de compra das mulheres vêm crescendo de forma acelerada - a ponto de despertar o interesse de inúmeros setores industriais.
Por exemplo, no período de 1995-98, as vendas de cosméticos e perfumes sofisticados cresceram 60%, sendo que a maior parte desse crescimento se deu nas camadas de renda mais baixa, através de compras a domicílio. É a democratização da boa aparência...
As mulheres da atualidade consomem também alguns produtos caros. No Brasil, elas compram um terço dos automóveis pequenos e médios.
Já foi o tempo em que as mulheres adquiriam o veículo selecionado pelo pai ou marido. Hoje, elas mesmas escolhem, pagam e saem dirigindo o automóvel cujo certificado de propriedade está no seu nome. A indústria automobilística mundial conhece bem a importância de pesquisar as preferências das mulheres antes de desenhar novos modelos.
Embora lenta, a convergência de salários entre homens e mulheres do mesmo nível educacional vem se processando no Brasil. Isso está sendo acelerado com a entrada de mulheres em profissões que, outrora, eram exclusivamente masculinas.
Há trinta anos, ninguém podia imaginar que a segurança de um aeroporto pudesse ficar à cargo de mulheres. Isso já acontece em vários aeroportos do Brasil.
A feminização da profissão de policial está sendo meteórica provocando, dentre outras coisas, a convergência salarial.
O mesmo ocorre com os juizes, advogados, médicos, veterinários, jornalistas, fotógrafos, corretores e gerentes de bancos.
Há ocupações que ainda são domínio quase exclusivo dos homens, especialmente na indústria: almoxarifes, armazenistas, eletricistas, expedidores, conferencistas, mestres, contramestres, técnicos, torneiros mecânicos, ferreiros, serralheiros, pedreiros, serventes de pedreiro, encanadores e carpinteiros.
Há outras que são predominantemente masculinas: oficiais e praças, porteiros, trocadores, vigias, contínuos e trabalhadores braçais em geral.
Em contrapartida, há profissões que ainda se mantém como predominantemente femininas: costureiras, empregadas domésticas, manicuras, professoras de 1º grau, secretárias e recepcionistas.
Há um grupo de ocupações em que a presença masculina vem declinando. É o caso dos administradores de empresas, analistas, programadores, advogados, jornalistas, assistentes administrativos, atendentes de lanchonetes, auxiliares de escritório, cozinheiros, caixas, comerciantes, contadores e administradores de hotéis. No comércio, as mulheres constituem uma parcela numerosa dos balconistas e vendedores. No setor público, são maioria nas funções de direção, chefia e assessoramento.
Há casos de profissões mistas, nos quais as mulheres já respondem por 40% a 60% do total. Hoje as médicas são tão numerosas quanto os médicos. As mulheres constituem a maioria dos estudantes nas faculdades de medicina. O mesmo ocorre com os dentistas.
Mas já há ocupações mistas também na indústria de transformação, tais como embaladores, soldadores e operadores de máquinas.
Não há registro de movimentos na direção inversa, ou seja, profissões tipicamente femininas progressivamente invadidas pelos homens. Ou seja, as mulheres avançam no então terreno dos homens mas os homens não entram no terreno das mulheres.
No mundo, as cinco profissões que mais crescerão nos próximos dez anos estão nas seguintes áreas:
1. atendimento domiciliar (especialmente a idosos);
2. serviços de saúde;
3. cuidados com a criança;
4. processamento de dados;
5. serviços administrativos.
As mulheres dominarão todas elas. Nos Estados Unidos, a participação feminina nessas áreas no inicio do próximo século será de 79% no atendimento domiciliar; 68% em processamento de dados; 70% em serviços de saúde; 70% nos cuidados com a criança; e 51% serviços administrativos. Essa tendência é clara também no Brasil.
Mas, o caminho a percorrer pelas mulheres ainda é grande. O mercado de trabalho mantém fortes desigualdades. No Brasil, o desemprego feminino fica sempre acima do masculino (10%) e a informalidade é mais alta entre as mulheres. Apenas 36% estão no mercado formal. Para a grande maioria de mulheres, faltam postos de trabalho de boa qualidade.
Além disso, as mulheres trabalham mais do que os homens. Na verdade, o uso do tempo da mulher é muito diferente do homem. O tempo remunerado é maior entre os homens e o não remunerado é maior entre as mulheres. Vejamos o que isso dá em termos de tempo trabalhado.
Dois terços do trabalho de casa são realizados pelas mulheres. A mulher gasta, em média, mais de 30 horas de trabalho por semana com os afazeres domésticos. O trabalho que mais consome tempo é a limpeza da casa e a preparação da comida.
Essa divisão do trabalho se mantém firme na maioria dos países. A maioria dos homens não lava roupa, não passa, não limpa a casa e não faz as camas. É verdade que a maioria das mulheres não cuida da reparação da casa. Mas, prossigamos na matemática do tempo trabalhado por homens e mulheres.
Mesmo quando as mulheres trabalham fora, elas fazem a maioria parte do serviço de casa. Em raros casos, há ajuda dos homens. Mas o tempo que eles alocam nas atividades profissionais e do lar tende a ser o mesmo ao longo de toda a sua vida. No caso da mulher isso é muito diferente. O tempo de trabalho da mulher flutua de maneira expressiva. Em certos ciclos de vida, o trabalho se torna extremamente intenso. Isso ocorre quando se combinam o trabalho fora de casa, com os afazeres domésticos e o cuidado das crianças pequenas.
Por tudo isso, conclui-se que a mulher trabalha muito mais tempo do que o homem. Isso é particularmente verdade para as mulheres que trabalham fora de casa e continuam com todas as responsabilidades do lar e das crianças.
Vantagens
e Desvantagens da Longevidade
Apesar dessa sobrecarga, a mulher vive mais do que o homem. No Brasil as expectativas de vida são de 69 anos para os homens e 64 para as mulheres.
As mulheres estão menos sujeitas à morte por doenças que afetam muito os homens. Dentre os brasileiros que morrem de infecções intestinais, 56% são homens e 44% mulheres. No caso de doenças parasitárias, as proporções são de 67% para os homens e 33% para as mulheres. A morte por moléstias isquêmicas do coração se divide em 59% para os homens e 41% para as mulheres. Entre as vítimas fatais de homicídios 85% são homens e apenas 15% mulheres.
É bom viver mais? Paradoxalmente, as mulheres, por viverem mais tempo, acabam criando vários problemas para si mesmas. Examinemos alguns dados.
A população do mundo assiste uma verdadeira explosão de idosos. As pessoas com mais de 65 anos estão aumentando na base de 800 mil pessoas por mês! São quase 10 milhões de pessoas por ano! E, isso tende a acelerar.
A população do Brasil aumenta menos de 2% ao ano. Mas, o grupo de pessoas entre 65-74 anos, aumenta 3,5%; e os que têm mais de 75 anos, 4% ao ano - o dobro da população em geral.
Mas o que as mulheres têm a ver com essa tendência? No Brasil, há cerca de 12 milhões de pessoas com mais de 60 anos - 5 milhões de homens e 7 de mulheres. O problema surge quando se constata que, dentre esses 7 milhões de mulheres, uma parcela crescente vive sozinha.
No campo econômico, há três modelos básicos para se amparar os idosos:
No primeiro, dá-se uma transferência de recursos dentro da própria família do idoso. Ou seja, os familiares arcam com suas despesas.
No segundo, a transferência é realizada pela via dos mecanismos institucionais (previdência e assistência social) para os quais a sociedade rateia os custos.
No terceiro, a transferência se dá com base nos recursos eventualmente acumulados pelo próprio idoso.
Em outras palavras, os idosos dependem de parentes, do Estado ou de sua poupança.
Até aqui falamos de transferências de recursos econômicos. Mas, para a transferência de carinho, nenhum modelo conseguiu superar a família.
A grande ironia é que, no mundo atual, quanto mais o idoso precisa de carinho, menos ele tem. As pesquisas mostram que a solidão aumenta com a idade e é mais grave entre as mulheres. Nos Estados Unidos, 13% dos homens de 65-74 anos vivem sozinhos. Entre as mulheres isso chega a 33%. A maioria tem muito conforto, é verdade, mas pouco carinho.
Para a faixa de 75-84, 19% dos homens vivem sozinhos. Mas, entre as mulheres, isso chega a 53%. São números fantásticos para um país rico e que não consegue reduzir a solidão dos mais velhos.
Está provado. No mundo da velhice, as mulheres vivem mais sozinhas do que os homens. Elas ficam e permanecem viúvas com mais freqüência. As mulheres idosas recasam pouco. Os homens recasam muito. No mundo, 80% dos homens com mais de 60 anos estão casados; entre as mulheres, são apenas 45%.
No Brasil, há cerca de 3 milhões de domicílios nos quais as pessoas moram completamente sozinhas e isso é particularmente freqüente entre os idosos. Entre as mulheres que vivem sozinhas, 45% têm mais de 60 anos. Entre os homens, são apenas 27%. Por viver mais, a solidão está se transformando num grave pesadelo para as mulheres.
Nos países menos desenvolvidos, era comum cuidar do idoso dentro da família. Mas a capacidade da família fazer esse trabalho reduz-se dia a dia. As famílias estão ficando menores, havendo menos pessoas disponíveis para cuidar dos mais velhos.
O cuidado do idoso sempre dependeu muito da mulher. Com o aumento de filhas e noras que trabalham fora de casa, o idoso está perdendo o seu amparo tradicional. Isso afeta a grande maioria de mulheres idosas que não recasam. No Brasil de hoje, mais de 60% das mulheres com mais de 60 anos estão sem o apoio familiar.
Vejam que ironia: a mulher tem o papel mais estratégico para cuidar de quem envelhece mas não tem ninguém para cuidar de si.
Dizem que quando há saúde física, a solidão é contornável. Pura ilusão. As pesquisas mostram que o gosto pela vida diminui quando se é esquecido na velhice. A taxa de suicídio entre os idosos é muitas vezes maior do que entre os jovens. São pessoas que se cansam de viver só, por não tolerarem mais a sua presença o tempo todo.
O ser humano é iminentemente gregário. Ele não foi construído para ficar isolado - mesmo quando cercado de sons, imagens, restaurantes, cinemas pássaros e flores.
Trabalho
e Convívio Familiar
Muitos argumentam que não cuidam dos idosos por falta de tempo. Aliás, o problema da falta de tempo é percebido pelas pessoas como grave ameaça à família. Muita gente gostaria de passar mais tempo com a família - como faziam seus avós - e não podem. Será que as pessoas de antigamente tinham mais tempo para ficar com a família?
A pesquisa histórica não confirma isso. Até o início do século 19, não havia nem tempo nem local para interação intensa. A semana de trabalho era de sete dias. O domingo era dedicado a atividades muito mais comunitárias do que familiares. A invasão da comunidade na família era a regra.
As cerimônias familiares (nascimento, batizado, casamento, etc.) também eram "invasivas".
Nessas ocasiões, os vizinhos, amigos e outros parentes tratavam a família como um ente quase-público. O único evento mais reservado era o da morte. Mesmo assim, a parentela velava o corpo por 24 horas e logo se dispersa.
Até meados do século passado, a sala de jantar como conhecemos hoje não havia sido inventada. A refeição principal era a do almoço, e feita na cozinha.
Marido e mulher, quando estavam em casa, envolviam-se intensamente com o trato e a administração da propriedade. Pais e filhos interagiam com cerimônia e muita distância social, ora por força do respeito, ora por força do autoritarismo - e na maior parte das vezes pelos dois motivos.
Fora de casa, homens e mulheres tinham espaços e tempos separados. Os homens gozavam de uma liberdade quase ilimitada para tocar suas carreiras e fazer seu lazer. As mulheres mantinham-se nos limites estreitos de uma liberdade constrangida e envolvidas com as tarefas do lar.
Mesmo assim idolatramos um passado que nunca vivemos. Calculando na ponta do lápis, a quantidade de tempo disponível para a família atual é muito maior do que no passado. A concentração do trabalho em apenas cinco dias da semana (semana inglesa) é uma invenção recente. E as jornadas de trabalho diárias estão cada vez mais curtas.
Não se trata, portanto, de falta de horas mas sim de como essas horas são usadas. É um problema distributivo. Hoje em dia, uma grande parte do tempo familiar é gasta em atividades que nos isolam da família como é o caso da televisão, internet, cinema. teatro, natação, malhação, etc. O trabalho parece ter pouco a ver com o problema em questão.
Apesar de tudo isso, multiplicam-se os casos de filhas, noras, filhos e genros que dizem aos mais velhos não poderem prestar nenhuma ajuda por não disporem do tempo necessário, nem para a sua própria família. Nesse processo, sofre mais quem é mais idoso e mais solitário, ou seja, a mulher.
Poder
e Conflitos Morais
As mulheres estão avançando também nas áreas da cultura e da política. Nélida Piñon, em 1996, tornou-se a primeira mulher a ocupar a Presidência da Academia Brasileira de Letras. Madaleine Albright foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Secretário de Estado nos Estados Unidos.
As últimas eleições municipais no Brasil foram um verdadeiro "passeio" para as mulheres. O povo elegeu 288 mulheres para o cargo de prefeito - enquanto que em 1992 foram apenas 171. As vereadoras somam mais de 5.000 em contraste com 1.672 eleitas em 1992. No agregado, as mulheres que preenchiam 3,5% dos cargos de vereadores em 1992, passaram para 7% em 1996 registrando, assim, um aumento de 100% em apenas quatro anos. As prefeitas que somavam 3,5% em 1992, passaram para 5,5% - 60% de acréscimo.
Há muitos casos de mulheres que quebraram o domínio político de oligarquias seculares. Vejam o caso da Maria Pandeló, do PT. Aos 37 anos ela chegou à Prefeitura de Barra Mansa, derrotando um esquema de cinco famílias que dominou o poder local por quase meio século.
As mulheres participam cada vez mais do poder judiciário. Cerca de 25% dos cargos de juizes são ocupados por mulheres. Nas cortes superiores a presença da mulher está se tornando cada vez mais freqüente. O Ministro José Celso de Mello do Supremo Tribunal Federal não esconde seu desejo de ver uma mulher na suprema corte.
Em um livro escrito por uma mulher, li o seguinte:
"Nos dias atuais, está difícil encontrar uma boa mulher. A mulher que trabalha, está sempre ameaçando alguém com uma ação trabalhista ou pedindo licenças. Em contrapartida, há aquelas que simplesmente deixam de lado os filhos em favor da carreira. Há ainda as que querem tudo: carreira, filhos, amor, lazer e, por isso, reivindicam uma jornada de trabalho suficientemente curta e flexível para concretizar seus sonhos irrealizáveis. Está difícil encontrar uma boa mulher" (Stone, 1997).
Pergunto aos homens: vocês teriam coragem de escrever uma coisa dessas? A autora percebeu que, de uns tempos para cá, o trabalho e a maternidade passaram a ser tratados como "obrigações morais" das mulheres.
Cresce a cada dia a idéia de que a mulher deve trabalhar fora de casa, não só para ajudar a economia doméstica, mas também para exercitar suas potencialidades. Ao mesmo tempo, está cada vez mais forte a noção de que o trabalho fora de casa prejudica a vida do lar e rouba tempo da família.
A mulher moderna está entre dois fogos. Isso cria muitos conflitos morais para as mulheres. Em muitas delas, o sentimento de culpa atormenta-as 24 horas por dia. Este é um problema tão sério quanto os diferenciais de salários acima mencionados. O sofrimento subjetivo muitas vezes ultrapassa a destituição econômica.
Em nossa cultura, predomina ainda a noção de que o trabalho fora de casa conspira contra a vida familiar. Se a mulher se dá no trabalho, ela não pode se dar no lar. Para cumprir um dos objetivos, ela tem de violar o outro.
Por isso, diz a autora, está difícil encontrar uma boa mulher. As nossas construções morais à respeito do papel da mulher na família e no trabalho são contraditórias.
Os homens não conseguem avaliar adequadamente a gravidade dessa contradição para a vida das mulheres. Na verdade, eles fazem parte do grupo que cobra delas uma perfeição no exercício dos dois papéis, ignorando os seus conflitos morais.
Esse não é um assunto que vai se resolver por lei ou por ação dos governos. Trata-se de um processo de mudança social demorado e que exigirá a reformulação das normas e valores da sociedade ao longo de várias décadas.
Trabalho,
Família e Divórcio
O trabalho da mulher tem alguma coisa a ver com o aumento do divórcio?
Sim, tem. As pesquisas comprovam que as separações são fortemente afetadas pelo que ocorre na situação de trabalho. Mas a causalidade é relativamente complexa.
Estudos recentes tratam o local de trabalho como um mercado dentro do qual atuam as forças da oferta e da procura - também em matéria de romance.
O divórcio incide mais quando, do lado da oferta, aumentam as "alternativas atraentes" para o homem e para a mulher.
Nessas circunstâncias, as pessoas arriscam um relacionamento afetivo que, na maior parte das vezes, acaba se tornando a gota d'água para a separação.
A oferta de alternativas atraentes está longe de ser a causa primeira do divórcio. Mas, não há dúvida que a sua disponibilidade é um precipitador importante para as pessoas que têm problemas no casamento.
Mas o que as mulheres têm a ver com divórcio? Em que isso afeta as
mulheres?
Para os homens, pesa muito a proporção de mulheres que trabalham ou estudam ao seu redor, assim como é importante o número de solteiras, separadas ou divorciadas que com eles convivem.
Para os homens, a "feminização" do mercado de trabalho aumentou a oferta de mulheres. O relacionamento interpessoal passou a ter muita chance de evoluir em direção à intimidade - o que, geralmente, agrava a instabilidade emocional dos cônjuges.
Além disso, as mulheres que trabalham, casam mais tarde - o que faz aumentar no ambiente de trabalho a oferta das não casadas.
Em outras palavras, a feminização do mercado de trabalho tornou-se um indutor indireto de divórcio. Isto não diminui o efeito dos fatores psicossociais, é claro, mas agrega um poder explicativo importante para esclarecer a colossal aceleração do divórcio dos últimos 20-30 anos.
Por sua vez, o aumento do divórcio, eleva as responsabilidades da mulher que geralmente fica com os filhos, pelo menos, por algum tempo. Nessas condições, a mulher passa a ser causa (parcial) e conseqüência do crescimento do divórcio na sociedade moderna.
As Novas
Formas de União
1. Coabitação - Uma tendência crescente de arranjos entre homens e mulheres é a coabitação sem casamento.
Nos Estados Unidos, entre 1980 e 1995, houve um aumento de 80% nesse tipo de união. Cerca de 50% dos casais jovens (menos de 40 anos) já estão nessa. "Viver junto" passou a ser uma forma cômoda de usar o mesmo teto, mantendo contas bancárias separadas.
Ainda não se chegou a uma teoria consolidada sobre as vantagens de casar ou viver junto. Mas, as pesquisas mostram que as pessoas que vivem junto tendem a ser menos comprometidas do que as casadas. Cerca de 50% dos que vivem juntos se separam dentro de cinco anos - contra 30% dos casados.
Apesar disso, viver junto ganha popularidade. Na Suécia, cerca de 50% das crianças são filhas de pais não-casados; na França, 35%; nos Estados Unidos, 30%. São números expressivos e que indicam uma alta a probabilidade dessas crianças virem a ser criadas por apenas um dos parceiros, dada a grande incidência de separação entre os que vivem juntos.
A sociedade parece não ter encontrado, até o momento, substitutos adequados para o matrimônio e para a família. Se o casamento dura pouco, viver junto dura menos ainda. E, nesse processo, as crianças e as mulheres são as grandes prejudicadas. As conseqüências da separação acabam se arrastando por várias gerações. As mulheres terminam carregando os fardos mais pesados na educação dos filhos, nos seus desvios de condutas e até mesmo no seu sustento econômico. Ou seja, a coabitação traz mais problemas para a mulher do que para o homem.
2. Produção Independente - As mulheres vêm sofrendo também o impacto dos novos padrões de geração de filhos. Em meados de 1996, o Brasil inteiro ficou sabendo que a Xuxa queria ter um filho - mesmo que fosse fruto de "produção independente".
O seu desejo não era original. Fernando Scherer, o Xuxa, medalha de bronze de natação em Atlanta, bem antes da sua xará, havia se tornado pai de uma criança de seis meses e jamais pensou em se casar ou ter uma companheira. Foi uma dessas opções modernas de criar filhos sem mãe. Essa guinada no padrão de criação dos filhos têm grandes implicações para as mulheres.
1. Até o final dos anos 50, o relacionamento sexual se baseava no engajamento amoroso de longa duração. Sexo e casamento conviviam como irmãos siameses. Para ter sexo era preciso casar.
2. Na década de 60, o mundo assistiu atônito a separação entre sexo e casamento. O sexo passou a se atrelar à sinceridade dos parceiros, e não necessariamente ao casamento. O sexo fora do casamento deixou de ser tratado como expressão do pecado, passando a ser considerado como uma saudável expressão de amor. Mas a família continuava essencial para criar a prole.
3. Na década de 90, porém, o casamento se separou da família. Hoje, muitas crianças vêm sendo criadas por parceiros não casados e que não pretendem se casar. No período de 1970-95, a proporção de mães isoladas saltou de 7,5% para 17,5%.
Portanto, nos anos 60, 70 e 80, o sexo se descolou do casamento. Agora o casamento está se dissociando da família. As "barrigas de aluguel" estão se tornando aceitáveis, servindo ora o homem, ora a própria mulher - uma verdadeira revolução nos padrões convencionais de relacionamento entre os seres humanos.
Resta saber, porém, qual será o impacto dessas novidades sobre os produtos dos relacionamentos - os filhos. Nesse processo, as crianças nascem sem ter voz, voto ou veto.
E, mais uma vez, as conseqüências desses projetos-piloto acabam sobrando para as mulheres. Na medida em que fracassam, vão se multiplicando os domicílios chefiados por mulheres e sobrecarregando a sua longa lista de atividades. Até o momento, tais projetos mostraram que a produção é independente, mas muito mais para os homens do que para as mulheres. Estas acabam assumindo pesadas responsabilidades familiares.
As inovações demoram muito para entrar no repertório institucional das sociedades. No período de interinidade, porém, nota-se que a sobrecarga de trabalho e responsabilidade sempre fica com as mulheres, no velho estilo em que os homens se sentiam no direito de serem mais livres, deixando para as mulheres os resultados de suas aventuras que, hoje, são feitas a dois. Essa parece ser a única e grande diferença. Os testes são realizados em parceria mas as conseqüências são carregadas de modo solitário - pela mulher.
3. Recusa à Procriar - Ao mesmo tempo em que uma parcela crescente das mulheres deseja filhos sem ter marido, em muitas sociedades as mulheres insistem em não ter filhos, apesar de terem maridos. Esse é o caso do Japão.
O envelhecimento do Japão está sendo mais rápido do que nos demais países. As pessoas com mais de 60 anos já ultrapassaram a casa dos 20% e no ano 2.010 serão 30%. A vida média, que hoje é de 76 anos para os homens e 83 para as mulheres, passará para 78 e 85 anos, respectivamente, no ano 2.010.
Os jovens estão rareando. As mulheres japonesas parecem ter desistido de ter filhos. Em 1950, cada mulher tinha, em média, 3,6 filhos. Hoje, essa taxa está em pouco mais de 1 filho por mulher, e continuará nesse patamar, pelo menos, até o ano 2.010.
O governo japonês vem promovendo intensas campanhas para estimular as moças a terem mais filhos. Elas não se animam, mesmo sabendo que o destino do equilíbrio da nação depende de sua decisão.
A resistência em procriar é tão séria quanto a procriação descontrolada. Os poucos jovens não darão conta de sustentar a imensidão de velhos no Japão, fazendo a nação entrar em risco. O trabalho só poderá ser realizado por uma grande quantidade de emigrantes.
Esta é uma situação muito estranha para uma sociedade que tradicionalmente se manteve fechada e confiante no seu próprio povo. Na verdade, essa idéia de uma nação sem povo, é estranha para o mundo inteiro. Nenhum país pode prescindir da reposição dos mais velhos pelos mais jovens.
O desafio japonês é enorme, e não será vencido por lei ou decreto. A sociedade terá de criar
estímulos concretos para levar as moças a gerar crianças. Esses estímulos terão de ser suficientemente fortes para superar os desestímulos atuais e que estão levando as japonesas a querer encerrar a geração de japoneses com a sua própria geração. Nunca na história, a mulher chegou a ter um papel importante na segurança nacional como no caso do Japão atual.
Conclusão
O mundo da mulher passa por uma enorme transformação. Nos últimos 30 anos, as mulheres ganharam muito mais liberdade do que ao longo de toda a sua história. A elevação do seu nível educacional e a redução do tamanho da família - além das necessidades econômicas de contribuir para o orçamento doméstico - fizeram da mulher um elemento crucial no desenvolvimento das nações.
Depois de passar por várias décadas de confrontação com o homem, a mulher entra agora numa fase de igualdade crescente. O talento profissional e a disciplina de trabalho estão transformando as mulheres em sérios concorrentes dos homens no mercado de trabalho. Em última análise, isso traz benefícios para as mulheres e os homens. Ao acirrar a competição profissional, a força de trabalho como um todo avança na produtividade e na qualidade do trabalho realizado.
A contribuição da mulher no aumento da produtividade em geral é expressiva. E é através desse processo que se pode esperar uma redução dos diferenciais de salários que ainda persistem em favor dos homens. Nas categorias profissionais mais solidificadas, em especial, naquelas em que as pessoas trabalham para órgãos públicos e grandes organizações privadas, a remuneração dos homens e das mulheres convergem a cada dia.
Mas, se as conquistas foram de grande monta, há muito para se conseguir. Muitas das dificuldades, porém, são de ordem geral. No Brasil, a informalidade, embora mais alta entre as mulheres, atinge em cheio a maior parte dos homens. A baixa qualidade do trabalho é um problema da grande maioria dos brasileiros. O desemprego, embora mais alto entre as mulheres, atinge uma parcela expressiva dos homens chefes de família.
Ou seja, a resolução dos problemas pendentes dependerá, em grande escala, da melhoria das condições do mercado de trabalho como um todo. Mas, isso dependerá também da continuidade da transformação dos valores que teve início nos anos 60.
Não há razão para se esperar uma reversão nesse campo. O avanço da noção dos direitos humanos, o aumento da demanda pelo tratamento condigno e a necessidade de prestar reverência a quem sabe e é capaz, tenderão a marcar as próximas décadas com um movimento francamente equalizador entre aqueles que durante séculos foram tratados de forma diferente no trabalho e na sociedade.
Para os homens inconformados com essa grande guinada histórica só resta recomendar: Homens de todo o mundo, uni-vos! Estudem tanto quanto as mulheres. Trabalhem tanto quanto elas. Tenham zelo no trabalho. Compartilhem com as mulheres uma grande parte das responsabilidades que sempre foram também suas embora nunca tenha percebido. Em uma palavra: homens de todo o mundo: acordem!
Referências
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Rodapés
Palestra apresentada no ITAE - Instituto de Tecnologia Avançada em Educação, São Paulo, 08-03-99 (Dia Internacional da Mulher).
Há um detalhe metodológico a ser considerado neste campo. A partir de 1990, o IBGE ampliou o conceito de trabalho e, a partir de 1992, esse conceito passou a incluir o autoconsumo, a produção familiar e outras atividades que antes não eram consideradas como trabalho. Isso provocou uma "expansão estatística" que deve ser analisada com cautela.
Esse grupo saltará dos 14% atuais para mais de 22% até o ano 2010.
No Brasil, a proporção de pessoas com mais de 60 anos que, em 1950, era pouco mais de 4% do total; hoje, ultrapassa os 8% e no ano 2010 será quase 12%.
Para os que têm mais de 85 anos, sobe para 28% e 57%, respectivamente.